Nada a esconder mesmo. Entre as diversas novidades apresentadas durante a semana do Watches and Wonders destacamos hoje alguns modelos que tomam vantagem da transparência para sublinhar o lado mecânico ou apresentar interessantes soluções técnicas.
Por Cesarina Sousa, em Genebra
Sempre animado, sempre intenso, sempre dinâmico. O Watches and Wonders é mesmo um mundo à parte. Para se compreender a dimensão do grande certame, os números apenas não servem, embora impressionem. Só quem lá vai compreende de facto estas palavras. Durante todo o período em que decorre — este ano decorreu entre os dias 14 e 20 de abril — as marcas expositoras têm uma oportunidade única para apresentar a um público vasto e diverso as suas principais novidades. O grande evento é também o momento certo para se aproximarem de clientes e profissionais do setor, de mostrarem aquilo de que são capazes, e de contarem ou recontarem a(s) sua(s) história(s).
Aliás, no Watches and Wonders 2026 história não faltou, porque estamos num ano de celebrações, com os 100 anos da caixa Oyster da Rolex e os 100 anos da Tudor, os 50 anos do Nautilus da Patek Philippe, do Ingenieur da IWC e da Raymond Weil, os 25 anos do Freak da Ulysse Nardin e da manufatura L.U.C da Chopard, entre outros aniversários. Estas celebrações deram o mote para muitos dos novos modelos, como em geral é hábito no setor, mas por mais inventivas, criativas e diferentes que as novidades sejam entre si, existem naturalmente alguns elementos transversais. Entre eles, destacamos os relógios que apostam no efeito de transparência para dar mais voz ao lado mecânico ou deslumbrar com hipnotizantes soluções técnicas.
Mecânica à vista
O lado mecânico e o lado técnico da relojoaria tende a encantar tanto conhecedores, como curiosos. E, no Watches and Wonders, diversas marcas apostaram de facto na revelação do lado mecânico, através do recurso a transparências que vão para além do vidro de safira no fundo.


Nesta linha, vimos, por exemplo, a Hermès com o Arceau Samarcande que evoca a ligação da marca ao mundo equestre não apenas através das asas assimétricas da caixa (inspiradas nos estribos, como é habitual na coleção), como também através da representação de uma silhueta de cavalo recortada no mostrador. Protegida por um vidro em cristal Saint-Louis, este elemento serve de janela para parte dos componentes mecânicos do Calibre H1927 com microrrotor que dá vida ao relógio. A magia depois acontece quando se ativa o mecanismo de repetição de minutos e podemos ver o movimento dos martelos que fazem soar o tempo no fundo do relógio, através de um vidro de safira.

Já num conceito distinto, mas que joga igualmente com a transparência, temos o Chronomaster Sport Skeleton. O novo relógio da Zenith combina um lado mais desportivo com um lado mais técnico, realçado por lunetas em cerâmica e um mostrador semitransparente esfumado que abre vista para o Calibre El Primero 3600 SK de alta frequência. O novo modelo é lançado em quatro declinações, incluindo uma em ouro rosa escovado, e é complementado com um fundo em vidro de safira. Em ambientes mais obscuros, a componente técnica e os acabamentos são ainda mais evidenciados, graças aos indexes e ponteiros com revestimento luminescente.

Como já é habitual, a ideia de transparência tende a estar particularmente associada a movimentos ou mostradores esqueletizados e, apesar muitas marcas apresentarem tendencialmente modelos desta natureza, na edição de 2026 do Watches and Wonders notou-se mesmo alguma variedade. A esqueletização de um movimento consiste em eliminar ao máximo metal dos componentes do mecanismo, de forma a revelar a sua complexidade mecânica. O efeito final é quase rendilhado, com a nota de que é um rendilhado que parece vivo, porque é possível acompanhar a animação dos componentes.
Muitas vezes, os relógios nem têm mostrador propriamente dito, mas outras vezes o mostrador é desbastado de modo a deixar entrever a animação mecânica. Chama-se mostrador esqueletizado também, mas não significa necessariamente que o mecanismo também o seja.


E voltamos a dizer: exemplos de relógios esqueletizados não faltaram nesta edição. Ainda assim, o que pretendemos destacar não é a esqueletização em si, mas o recurso a transparências e, neste caso, a Jaeger-LeCoultre destacou-se com o seu Master Hybris Mechanica Ultra Thin Minute Repeater. Porquê? Porque não bastou ser um relógio mecânico com mecanismo esqueletizado e repetição de minutos. Se a ideia é exibir, então que se exiba em grande: a marca suíça optou por acrescentar ao mecanismo pontes transparentes, de modo a revelar ao máximo todo o espetáculo mecânico em pleno funcionamento.
Efeito misterioso

A Referência 6105G-001, integrada na coleção Grand Complications da Patek Philippe, foi uma das grandes estrelas de entre as 20 novidades lançadas pela histórica marca genebrina. Em breve, analisaremos mais em detalhe este impressionante modelo, mas temos mesmo de sublinhar a transparência do mostrador. Da caixa de 47mm de inspiração espacial, sobressai um mostrador misterioso composto por três discos sobrepostos rotativos: dois em vidro mineral e um em vidro de safira metalizado.

O disco na periferia permite ler a data através de um ponteiro vermelho, além de exibir as horas do nascer e do pôr do sol nas suas respetivas escalas, indicadas por dois ponteiros. Depois, os ponteiros esqueletizados centrais indicam as horas. Este relógio é alimentado pelo Calibre 240 C LU CL LCSO, que exigiu mais de cinco anos de desenvolvimento e o registo de seis patentes, e tem como base o céu noturno visto de Genebra, com apresentação do movimento aparente das estrelas, bem como as fases e a órbita da Lua.

Na mesma linha, mas numa vertente mais estética e, ainda assim, misteriosa pela ilusão que provoca, seria impossível não mencionar a Chopard com o seu conceito Happy Diamonds, aplicado aos modelos Happy Sport. Todos os anos, a marca suíça apresenta novos relógios que adotam os inconfundíveis diamantes dançantes entre dois vidros de safira. As estrelas da companhia em 2026 foram o Happy Hearts com caixa em aço, mostrador em madrepérola e bracelete de ganga do qual saltam à vista dois irrequietos corações também em madrepérola e três diamantes. O outro modelo é uma variante em tons de verde, com caixa em aço e ouro rosa, mostrador guilloché e cinco diamantes. Bons motivos para ver as horas.
Em grande escala
Não foi uma novidade de 2026, mas esteve exposto e faz todo o sentido referir o gigante La Quête du Temps, um relógio autómato astronómico que foi apresentado no final do ano passado, como o culminar das celebrações dos 270 anos da Vacheron Constantin. Esta criação de exceção integrou no Watches and Wonders a exposição Mechanical Marvels of Art and Innovation patente no stand da marca, dedicada à arte da criação de relógios mecânicos complicados, e integra 22 complicações, 6293 componentes, bem como 15 pedidos de patentes. Mas fora os números que impressionam (mais uma vez), o que impressiona mesmo é o seu funcionamento: no cimo deste relógio musical, tal como um ser humano, um autómato em movimento prende a nossa atenção. Toda esta máquina é envolta em transparência, pelo que podemos contemplar ao máximo o movimento de todos os componentes.

Também no domínio dos relógios de mesa, a Chopard surpreendeu com o Beehive Table Clock, desenvolvido em parceria com a L’Épée e que simula uma colmeia com abelhas. Feito em vidro mineral, integra um movimento mecânico que bate as horas sonoramente à passagem; depois, é complementado por duas abelhas feitas de ouro amarelo e cravejadas com safiras amarelas e diamantes negros. No mesmo sentido, mas de efeito transparente já conhecido, a Jaeger-LeCoutre voltou a emparceirar com o conhecido designer Marc Newson para mais uma versão do Atmos.

Já o Lange 1 Perpetual da A.Lange & Söhne da celebrada linha Lumen foi a novidade que a marca escolheu para destacar em grande escala no seu stand do Watches and Wonders 2026. Com caixa em platina e lançado numa edição limitada a 50 exemplares, este relógio de pulso causa um poderoso impacto pelo seu efeito de transparência, que surge em maior evidência no escuro. Quando as luzes se apagam, a forte luminescência torna este relógio ainda mais misterioso, uma vez que destaca, em tons de verde, os discos que dão vida a algumas das complicações. O mostrador em vidro escurecido abre a vista para a complexidade mecânica, com a nota de que se trata de um calendário perpétuo.
Um vislumbre

Por fim, queremos ainda mencionar a linha Hublot Spirit of Big Bang Impact, em especial a versão Sapphire que adiciona à transparência da sua caixa em vidro de safira, um original caráter através de um mostrador fragmentado que permite vislumbrar partes do interior mecânico. No interior, vive o calibre automático esqueletizado HUB1770 com indicação das fases da Lua, às 6 horas, apoiado por um disco semi-transparente que oferece um delicado efeito desfocado ao percurso do disco rotativo que contempla duas representações do satélite natural da Terra.





