Atmos da Jaeger-LeCoultre: as eras e as versões mais importantes de um mito

O Atmos é o famoso relógio da Jaeger-LeCoultre que funciona com o ar e que tem sido o presente preferencial da Confederação Helvética para as visitas de estado. A caminho do século de vida, escolhemos os modelos mais representativos.

Entre todas as criações da relojoaria moderna, poucas são tão extraordinárias como o Atmos da Jaeger-LeCoultre — que nem sequer é um relógio de pulso. Trata-se de um relógio de mesa, inventado pelo engenheiro suíço Jean-Léon Reutter; o primeiro protótipo de um relógio capaz de funcionar (praticamente) sem intervenção humana surgiu em 1928 e o seu conceito era extremamente engenhoso: utilizar pequenas variações de temperatura e pressão atmosférica para gerar energia suficiente para dar corda ao relógio. O sistema assenta numa cápsula hermética cheia de gás (originalmente uma mistura baseada em cloreto de etilo) e, quando a temperatura oscila, mesmo que muito pouco!, o gás expande-se ou contrai-se, acionando um fole metálico cuja movimentação dá corda à mola do mecanismo relojoeiro.

O êmbolo (à esquerda) cheio de um gás especial que faz distender a membrana do mecanismo Atmos | Foto: Jaeger-LeCoultre

Devido ao consumo energético extremamente baixo do mecanismo, uma variação de apenas 1°C fornece energia para cerca de dois dias de funcionamento. No entanto, os primeiros relógios Atmos produzidos por Jean-Léon Reutter tinham alguns problemas técnicos e o engenheiro recorreu à Jaeger-LeCoultre para resolver essas limitações; a manufatura de Le Sentier assumiu a produção e o desenvolvimento no início da década de 1930, redesenhando completamente o mecanismo — e lançou em 1934 o primeiro Atmos realmente fiável, estabelecendo a base técnica que hoje continua a ser utilizada e a seduzir os conhecedores.

O Atmos tem sido objeto de interpretações estilísticas desde o seu advento na década de 30 | Foto: Jaeger-LeCoultre

O Atmos não precisa de corda manual, bateria ou eletricidade. Um gás de fórmula secreta, que é contido numa cápsula hermética, expande-se e contrai-se com mudanças mínimas no ambiente, acionando um sistema de molas que mantém o relógio em funcionamento. Uma variação de apenas um grau Celsius pode fornecer energia suficiente para cerca de dois dias de funcionamento — o que faz do Atmos um dos mecanismos mecânicos mais eficientes alguma vez criados.

O mecanismo do Atmos que se alimenta do ar para funcionar | Foto: Jaeger-LeCoultre

Desde o início da produção comercial, nos anos 1930, foram fabricados centenas de milhares de Atmos. Alguns tornaram-se relógios decorativos relativamente comuns; outros, pelo contrário, estão entre os objetos de relojoaria mais raros e valiosos alguma vez produzidos. Aqui ficam os modelos Atmos mais importantes de cada era — do ponto de vista histórico e de valor para colecionadores.

As origens: anos 1930

O Atmos I, introduzido por volta de 1934, apresenta características típicas do período: caixa de vidro em forma de cúpula, base frequentemente em mármore, estética Art Déco muito marcada, movimento inicial conhecido como Calibre 30A. Embora tecnicamente menos refinado do que os Atmos posteriores, o modelo inicial é extremamente importante porque estabelece o princípio fundamental que define todos os Atmos até hoje. Exemplares originais em bom estado são relativamente raros e altamente procurados por colecionadores.

Um dos primeiros Atmos do criador Jean-Léon Reutter, apresentado em 1930 | Foto: Jaeger-LeCoultre

O segundo grande desenvolvimento do Atmos trouxe uma melhoria técnica decisiva no Atmos II, lançado no final da década de 1930. Nos primeiros modelos Atmos I, o sistema dependia parcialmente de mercúrio. No Atmos II, a Jaeger-LeCoultre substituiu esse mecanismo por um sistema de fole contendo cloreto de etilo, muito mais estável e sensível às variações térmicas. Tal solução permitiu ao Atmos captar energia a partir de variações muito pequenas do ambiente, tornando o relógio suficientemente fiável para produção regular. O Atmos deixou de ser uma curiosidade experimental e transformou-se num objeto de prestígio comercializável.

Era clássica: anos 1950–1970

Após a Segunda Guerra Mundial, o Atmos entrou na sua fase clássica, com o design que se tornou icónico e é mais reconhecível ainda nos dias de hoje. Os modelos pós-guerra apresentam geralmente uma caixa retangular de vidro, estrutura metálica em latão dourado, mostrador circular simples e pêndulo de torção visível que gira lentamente dentro da caixa.

Vários exemplares Atmos mid-century expostos no museu da manufatura, em Le Sentier | Foto: Jaeger-LeCoultre

Entre os modelos mais conhecidos encontra-se o Atmos VIII, introduzido no final da década de 1960 e que se tornou num símbolo da marca. O Atmos passou a ser frequentemente oferecido como presente diplomático oficial e Chefes de Estado de vários países receberam um exemplar, consolidar o estatuto do relógio como objeto de prestígio internacional. Embora não sejam os mais raros, os Atmos clássicos (III, IV, V, VI, VII e VIII) continuam a ser os modelos mais reconhecíveis e mais colecionados.

Era experimental: anos 1970

A partir dos anos 1970, a Jaeger-LeCoultre começou a explorar novas abordagens estéticas, convidando designers e artistas para reinterpretar o conceito Atmos. Alguns dos modelos tornaram-se peças extremamente raras. Um dos exemplos mais radicais é o Atmos Moderne, desenhado pelo famoso designer industrial italiano Luigi Colani e que rompe completamente com a estética tradicional do Atmos: caixa cúbica de linhas futuristas, superfícies curvas em vidro, mostrador em forma de trevo.

O mítico Atmos Moderne da década de 70, assinado por Luigi Colani | Foto: Jaeger-LeCoultre

Luigi Colani era conhecido pelas formas orgânicas e aerodinâmicas, e o Atmos Moderne reflete plenamente a sua filosofia. Produzido apenas entre 1973 e 1975, é hoje um dos Atmos mais raros e mais procurados.

Era milenar: anos 2000

Criado para celebrar o ano 2000, o Atmos Marqueterie du Millénaire é uma das interpretações artísticas mais sofisticadas. A caixa apresenta elaborados painéis de marquetaria em madeira, inspirados nas composições decorativas do período Art Nouveau, particularmente na estética de artistas como Alphonse Mucha. Incorpora também várias complicações adicionais, incluindo calendário, fases da lua e indicações temporais avançadas. O Atmos deixava de ser apenas um instrumento de medição do tempo para se tornar numa peça de arte altamente decorativa e de relojoaria sofisticada em simultâneo. Várias outras versões de marqueteria foram posteriormente lançadas.

O artístico Atmos Marqueterie Le Baiser | Foto: Jaeger-LeCoultre

O Atmos Atlantis também impressionou aquando do seu lançamento e celebrou igualmente a mudança do milénio. O design distingue-se imediatamente por uma caixa triangular de vidro, três suportes cónicos e estética arquitetónica futurista. A versão mais complexa, conhecida como Atlantis du Millénaire, integra um sofisticado sistema de calendário perpétuo. Graças à sua produção limitada e complexidade técnica, tornou-se extremamente desejável entre colecionadores de Atmos.

O Atmos Atlantis du MIllénaire que marcou a viragem do milénio | Foto: Jaeger-LeCoultre

Um dos exemplares mais caros alguma vez produzidos é o Atmos Mystérieuse, lançado em 2003 para celebrar o 75.º aniversário do relógio. Apresenta uma caixa em cristal, componentes em ouro e ónix e decoração com diamantes. Foram produzidos apenas 75 exemplares, com um preço aproximado de 1,5 milhões de dólares por unidade. O Mystérieuse representa o extremo da filosofia Atmos: uma fusão entre engenharia relojoeira, escultura e joalharia.

Era contemporânea: 2008-2026

Nas últimas décadas, a Jaeger-LeCoultre continuou a reinventar o Atmos — e pode dizer-se que a sua era contemporânea arrancou com o espetacular Atmos 566, desenvolvido em colaboração com o designer Marc Newson. Apresenta uma caixa em cristal Baccarat, indicações astronómicas complexas e design minimalista contemporâneo; o mecanismo aparentemente flutua, inclui um mapa celeste do hemisfério norte no mostrador, apresenta a indicação da equação do tempo e tem um calendário mensal em disco rotativo. O objetivo era criar um Atmos que fosse simultaneamente científico e minimalista, mostrando o movimento dos astros de forma visualmente elegante. Marc Newson faria depois um outro Atmos com cristal azul.

O Atmos 568, segunda colaboração com o famoso designer Marc Newson | Foto: Jaeger-LeCoultre

A linha Atmos Classique Moon Phase representa a continuidade moderna do design clássico. Embora visualmente semelhante aos Atmos do século XX, incorpora movimentos contemporâneos refinados, fases da lua de grande precisão e melhorias técnicas no consumo de energia. A Jaeger-LeCoultre tem explorado cada vez mais complicações baseadas em ciclos longos, como fases da lua e calendário, porque são particularmente adequadas ao consumo extremamente baixo do Atmos. É o Atmos clássico moderno do catálogo da marca.

O Atmos Transparente possibilita um claro visionamento do mecanismo | Foto: Jaeger-LeCoultre

Outro desenvolvimento contemporâneo importante é o Atmos Transparente, que explora uma ideia simples mas poderosa: maximizar a visibilidade do mecanismo. A caixa é praticamente toda em vidro, estrutura mínima em metal, forte ênfase na arquitetura do movimento. O objetivo é transformar o relógio numa espécie de escultura cinética, onde o observador pode acompanhar o movimento extremamente lento do pêndulo de torção.

O excecional Atmos Hybris Mechanica Calibre 590 | Foto: Jaeger-LeCoultre

Num capítulo mais superlativo, o Atmos Hybris Mechanica Calibre 590 é provavelmente o Atmos mais complexo alguma vez criado. Também conhecido como Atmos Tellurium, reproduz mecanicamente a rotação da Terra, a órbita da Lua e o movimento da Terra em torno do Sol. Também inclui: indicação dia/noite; calendário zodiacal; meses e estações; e fases da lua extremamente precisas. O mecanismo contém 443 componentes e exigiu mais de quatro anos de desenvolvimento. Foi produzido numa edição muito limitada de apenas 10 exemplares, sendo considerado uma verdadeira obra de arte relojoeira. Preço aproximado: cerca de 500.000 a 600.000 euros.

Pós-moderno: o Atmos Infinite Halo de 2025 | Foto: Jaeger-LeCoultre

No ano passado, a Jaeger-LeCoultre introduziu o Atmos Infinite Halo — dotado de um campânula cilíndrica de vidro inspirada nos primeiros Atmos, mas adaptada aos tempos contemporâneos.

Para sempre

O sucesso duradouro do Atmos deve-se a características fora do comum: eficiência energética (o mecanismo consome uma quantidade ínfima de energia) e movimento extremamente lento (o pêndulo de oscila apenas duas vezes por minuto). E, embora não seja verdadeiramente perpétuo, pode funcionar indefinidamente desde que ocorram pequenas variações de temperatura.

O Atmos é o mais famoso relógio de mesa da história da relojoaria | Foto: Jaeger-LeCoultre

Quase um século após a sua invenção, o Atmos continua a ser um símbolo da capacidade da Jaeger-LeCoultre de unir ciência, arte e tradição relojoeira num único objeto extraordinário — um relógio que, de forma quase poética, funciona graças ao próprio ar que nos rodeia.

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