Bulgari em modo sport e o caso Andrey Rublev

No espaço de uma dúzia de anos, a Bulgari cometeu a proeza de ser tornar num player incontornável da alta-relojoaria. Mais recentemente, passou também a aventurar-se mais no mundo do desporto — nomeadamente através de Andrey Rublev, um tenista muito especial.

A reputada firma joalheira Bulgari nunca descurou a sua vertente relojoeira; no entanto, os relógios (alguns deles emblemáticos) eram encarados como complemento de uma alargada panóplia de artigos de luxo com a chancela da casa romana — até que surgiu a aquisição das marcas de alta-relojoaria Daniel Roth e Gerald Genta, no início do milénio, e uma extraordinária aposta num atelier de vanguarda relojoeira a partir do momento em que Jean-Christophe Babin assumiu o cargo de CEO. A genialidade do diretor criativo Fabrizio Buonamassa e a competência do managing director Antoine Pin também contribuiram grandemente, sobretudo com o advento do Octo Finissimo… que tem colecionado prémios atrás de prémios no Grand Prix d’Horlogerie de Genève. O relançamento da linha Aluminium, em 2020, veio acrescentar à coleção uma vertente mais desportiva.

Andrey Rublev
Andrey Rublev esteve na origem do desenvolvimento do Aluminium Match Point Edition | © Bulgari

A Bulgari sempre esteve mais inclinada para outras esferas que não a desportiva, não só devido às suas raízes joalheiras mas também sabendo o quão saturado é o mercado do patrocínio desportivo. No entanto, tem dado sinais de uma maior abertura. Apresentou recentemente uma edição limitada de cronógrafos Aluminium especiais de corrida, após o lançamento de um modelo dedicado ao ténis e que surgiu em Wimbledon no pulso do seu primeiro embaixador desportivo oficial: o tenista russo Andrey Rublev, de 26 anos e atual número cinco do ranking mundial. O nome pode não ser tão conhecido fora do ténis como é o de Roger Federer, Rafael Nadal, Novak Djokovic ou mesmo do menino-prodígio Carlos Alcaraz, mas Andrey Rublev tem-se afirmado como um dos jogadores mais populares do circuito — talvez porque os aficionados aprenderam a entender melhor e a apreciar devidamente a sua personalidade.

Andrey Rublev
Em Roma, sê romano: Andrey Rublev na Cidade Eterna | © Bulgari

Andrey Rublev deu que falar desde os tempos de júnior pela sua incrível cadência no fundo do court e, principalmente, por ser muito temperamental; com o passar dos anos, também se tornou conhecido por ser alguém encantadoramente genuíno, admiravelmente vulnerável e definitivamente de bom coração. E pelo apelo à paz escrito numa câmara de televisão. A sua temporada de 2023 foi um tanto agridoce: teve momentos inéditos e reforçou o seu estatuto de top 5 mundial, mas também foi algo frustrante devido à malapata nos quartos-de-final dos torneios do Grand Slam e alguns desaires em duelos muito equilibrados; sobretudo, teve vários momentos simbólicos.

Andrey Rublev
Andrey Rublev de relógio no pulso durante os quartos-de-final de Wimbledon | © AELTC

Um deles ocorreu após a final do Dubai perdida para o amigo e compadre Daniil Medvedev, que no seu discurso de vitória disse «Acho que as pessoas começam a perceber que o Andrey é provavelmente a pessoa mais bondosa do circuito» (ao que Rublev respondeu «é mentira!»). Em abril, o moscovita conseguiu finalmente ganhar um primeiro título Masters 1000 de maneira espetacular — recuperando de 1-4 e breakpoint contra no terceiro set para vencer Holger Rune com a preciosa ajuda do público no Monte-Carlo Country Club: os espetadores cantaram o seu nome em uníssono e empurraram-no para a vitória; no fim, ficou sensibilizado com o apoio dos espectadores e não conseguiu esconder a sua emoção… mas ele nunca foi de esconder a sua felicidade ou frustração.

Andrey Rublev com Bulgari
Com o Aluminium Match Point Edition e o Aluminium Chronograph | © Bulgari

Andrey Rublev também tem um sorriso cativante e o seu visual ruivo chamou a atenção da Bulgari, que fez dele embaixador da marca. Hoje em dia, o verdadeiro sinal de que um tenista se estabeleceu no topo é ter um contrato com uma prestigiada companhia relojoeira; ao longo do ano, o russo fez jus à parceria usando diversos modelos Octo Finissimo, Octo Roma e Aluminium. Primeiro, logo após os encontros e nas cerimónias de entrega de prémios; subitamente, em Wimbledon estreou-se a jogar de relógio com uma edição especial — o Bulgari Aluminium Match Point Edition — especialmente concebida para o ténis, extremamente leve e com a coroa à esquerda para que a coroa não incomode a mão durante a execução das pancadas (no caso de Rublev, a esquerda batida a duas mãos).

O Aluminium Match Point Edition é um relógio desportivo inspirado no ténis | © Bulgari

No Masters 1000 de Xangai, o moscovita até cometeu a proeza de usar dois relógios no dia da final: o Aluminium Match Point Edition durante o encontro e o Octo Roma na cerimónia de entrega dos troféus! Para além de embaixador, a Bulgari também o tornou parceiro de sua iniciativa filantrópica Save the Children. Ele próprio joga com equipamentos que têm a inscrição ‘Play for the Children’. Adora as crianças e as crianças adoram ‘Rublo’, provavelmente porque ele é o Peter Pan do ténis: ainda exala o mesmo charme juvenil e parece que nunca irá perdê-lo. Mas isso não significa que ele não seja levado a sério. Pelo contrário — foi o único (entre os circuitos ATP e WTA) a ganhar pelo menos 50 encontros em cada uma das últimas três épocas e conta com 14 títulos ATP no seu palmarés, para além de uma medalha de ouro olímpica em pares mistos e de troféus coletivos na Taça Davis, ATP Cup e Laver Cup. Fomos a Barcelona conversar sobre a sua carreira no ténis e a surpreendente associação à Bulgari; aqui fica a parte relojoeira.

Andrey Rublev
Estreia: Andrey Rublev nunca tinha jogado de relógio no pulso antes de Wimbledon | © AELTC

Estás associado a uma marca relojoeira de prestígio, a Bulgari. Tornaste-te mesmo no primeiro embaixador da Bulgari no ténis e isso foi surpreendente porque a Bulgari é uma marca que geralmente não está no desporto. Como surgiu a associação e porque achas que te escolheram?
Em 2020, a Bulgari voltou a introduzir a sua linha de relógios em alumínio — e, sendo um relógio mais desportivo, fui convidado para fazer uma sessão de fotografia com a Bulgari para a revista GQ na Rússia. Para além disso, a Bulgari tem um projeto social (Save the Children) que achei muito interessante. É uma marca de prestígio e só vi aspetos positivos na associação. Quando fiz as sessões fotográficas conheci a equipa russa da Bulgari e estabelecemos uma boa conexão; começamos a conversar, acho que eles gostaram de mim, eu gostei deles, apaixonámo-nos, eu apaixonei-me pela marca e depois tornei-me embaixador internacional da Bulgari.

Hoje em dia, todos os melhores jogadores de ténis do mundo têm contrato com uma marca de relógios e alguns deles tornaram-se mesmo verdadeiros aficionados. Falas com eles sobre relógios?
Não sou muito de falar, mas tenho uma grande afinidade pela Bulgari e pelo que faz enquanto marca de relógios e jóias, a filosofia da empresa. Não sou realmente alguém que fala com outros jogadores sobre relógios, mas encontrei-me com o chefe da divisão de relógios da Bulgari, Antoine Pin — conversamos muito, explicaram-me como funcionam os relógios mecânicos. Agora preciso de ir à manufatura da Bulgari na Suíça e ver como são feitos os relógios para perceber ainda melhor!

Bulgari Aluminium Match Point
Verde com toques de amarelo ótico: o Aluminium Match Point Edition | © Bulgari

Atualmente, um dos rituais mais conhecidos no ténis consiste em ver os melhores jogadores do mundo irem buscar ao saco o relógio do patrocinador para o colocar no pulso antes das entrevistas no court. Era o que fazias. Como conseguiste ganhar esse hábito?
Depois de alguns encontros tensos não é fácil lembrar-nos de pôr o relógio… nas primeiras vezes esqueci-me, mas depois virou um hábito — após cada encontro vou sempre para o meu banco meter a raquete e a bandana dentro do saco e comecei a deixar o relógio ali mesmo à mão, pelo que ficou mais fácil lembrar-me de o pôr antes da entrevista.

Mas em Wimbledon surgiste pela primeira vez a jogar encontros oficiais com um relógio no pulso, a edição especial ultraleve Aluminium Match Point Edition. O que te fez mudar de ideias?
Acabou por ser fácil, porque o relógio assenta muito bem no pulso. É leve e confortável. Falamos sobre o assunto e eu disse que achava que seria bom para a marca se usasse um relógio também durante os encontros — para além disso, as coisas que a Bulgari tem feito na indústria da moda são impressionantes. Por isso acho que é uma excelente combinação; trazer a moda e o estilo para o court de ténis é um bom passo, pelo que a decisão de passar a jogar de relógio acabou por ser fácil.

Andrey Rublev com Bulgari
O sorriso cativante e o visual ruivo de Andrey Rublev chamaram a atenção da Bulgari, que fez dele embaixador da marca | © Bulgari

A Bulgari é uma marca joalheira de renome, mas os seus relógios também são excecionais; a Bulgari tem ganhado regularmente prémios Watch Of The Year um pouco por todo o lado nos últimos doze anos, especialmente devido à coleção Octo Finissimo. Já te vi com modelos Octo e também da linha Aluminium — quais os modelos que tens na coleção?
Tenho um Aluminium Match Point Edition, um Aluminium Chronograph, um Aluminium GMT com segundo fuso horário, um Octo Finissimo em titânio, um Octo Finissimo Skeleton em cerâmica preta e um Octo Roma. Nos encontros, uso o Aluminium Match Point Edition; fora do court, gosto muito de usar o Octo Finissimo Skeleton: o visual é completamente diferente de qualquer outro relógio! É um relógio super cool. E vou alternando os Octo com os Aluminium.

Bvlgari Octo Finissimo sobre fundo de aço © Bvlgari
Andrey Rublev também usa frequentemente os seus Octo Finissimo | © Bulgari

O teu treinador, Fernando Vicente, disse certa vez que tinhas uma ‘nobre alma’. Essa afirmação é marcante — e confirma que tu não só és boa pessoa, mas também alguém sensível a causas sérias e que mostra fair-play no court. O que achas do que ele disse?
Ele está a mentir um bocadinho, não? (risos) É uma boa pergunta para se fazer a ele. Eu não gosto de falar de mim, não consigo descrever-me. Só posso dizer que quando faço algo menos adequado ou quando o erro é meu, posso facilmente admitir que sou o culpado. Apenas tento ser melhor enquanto pessoa. Cada um tem critérios diferentes para definir o que é uma boa pessoa. Eu tenho a minha própria visão do que é a gentileza e a bondade; tento trabalhar para me tornar uma pessoa melhor. Em relação ao fair-play, acho que é apenas a natureza própria — não se trata de ser justo ou injusto. Tenho a certeza de que, às vezes, não estou a ser justo aos olhos das outras pessoas. Cada jogador tem uma abordagem diferente para enfrentar a pressão, cada um tem uma personalidade diferente. Eu não gosto de mentir.

Andrey Rublev
O temperamental moscovita foi o único jogador a ganhar pelo menos 50 encontros em cada uma das últimas três épocas | © AELTC

Ganhaste fama de good guy entre os aficionados e adeptos; vimos isso especialmente em Monte-Carlo, com o estádio todo a gritar o teu nome e a ajudar-te a ganhar uma final que estava muito complicada. Como viste esse apoio?
Não sei se sou um good guy ou não, porque ninguém é perfeito. O que posso dizer é que na minha vida cometi muitos erros, magoei muitas pessoas, a minha família, entes queridos — não sou bom ou mau, mas com esse apoio certamente posso ser uma pessoa melhor e melhorar para partilhar com os outros. Ter esse apoio faz-me sentir muito grato, porque não é fácil conseguir apoio em geral. Conseguir um bom apoio do público é muito difícil e estou muito grato por ter esse apoio. Começo a senti-lo cada vez mais e quero agradecer a cada pessoa que me apoia.

Jogaste com todos os melhores jogadores da chamada ‘Geração de Ouro’ e ganhaste a cada um dos chamados Big 3. Podes dar a tua opinião sobre o que sempre tornou Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic tão difíceis de bater?
O que posso dizer? O ‘Rogelio’ é o maestro… como quando estamos na escola, numa aula de matemática, e o professor diz ‘sigam este exemplo’ e nós tentamos seguir. Ele foi exemplar, um exemplo perfeito. O Novak é inacreditável, o modo como continua a jogar e a ganhar — ele ainda é o melhor do mundo. O Rafa é irreal e para mim ele tem a melhor mentalidade de todos os desportos, nunca vi um desportista com a força mental dele. Pode acontecer com o Roger e o Novak, quando estão em baixo, perder encontros rapidamente; mas quando o Rafa está a perder e mesmo jogando mal, ainda obriga os adversários a lutar por mais de duas horas para lhe ganhar num encontro à melhor de três sets. Ele faz os outros sofrerem. Por isso ele arranja sempre maneira de vencer, porque não há muita gente disposta a sofrer tanto tempo…

‘Rublo’ de Octo Finissimo com a Espiral do Tempo em Barcelona e com o Aluminium Match Point Edition | © Bulgari

E como vês o futuro do ténis? Enfrentaste os Big 3, agora há três jovens que são apontados como os futuros Big 3 — Carlos Alcaraz, Jannik Sinner, Holger Rune…
Todos eles têm um potencial irreal — mas, se olharmos bem, todos os 20 melhores jogadores têm jogo para estar no top 10. O nível aumentou muito e agora há mais jogadores a lutar pelo top 10 e por títulos do Grand Slam do que antes. Todos são perigosos e há novos jogadores super perigosos a chegar-se ao topo, como o Jack Draper. Eu estava algo preocupado com o que iria acontecer com o ténis quando o Roger, o Rafa e o Novak se aposentassem, porque havia o risco de muitas pessoas deixarem de seguir a modalidade. Mas com a nova geração temos muito mais opções e os jogadores têm personalidades completamente diferentes — e as pessoas estão interessadas no que os novos jogadores dizem, como estão a jogar.

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