Doxa e a evolução do Sub 200 II

Com o alargamento até aos 44mm, o novo modelo da Doxa representa uma inesperada evolução num mercado que está a encolher os relógios e oferece uma dimensão mais estilosa ao catálogo da marca de Bienne especializada em tool watches.

Foi lançado na presente semana, mas já o tínhamos visto pessoalmente aquando de uma visita à sede da Doxa no final de fevereiro. E, para começar, o que se pode dizer é que o anúncio do novo Sub 200 II representa uma decisão quase contracorrente num mercado dominado pelo downsizing: enquanto grande parte da indústria caminha para diâmetros mais contidos, a Doxa opta por aumentar o tamanho da caixa do seu modelo mais acessível de 42 para 44mm — embora conseguindo reduzir a espessura de 13,8 para 12,8mm. Ou seja, é um modelo que vai contra a tendência minguante generalizada, o que revela uma clara afirmação de identidade num segmento algo saturado de divers de inspiração vintage algo previsíveis.

Sub 200 II Redcoral com bracelete Tropic: os 44mm vestem muito bem no pulso | Foto: Doxa

Com o novo Doxa Sub 200 II, a Doxa provou não estar a seguir modas; está a afirmar que o Sub 200, lançado em 2019, pode evoluir sem perder personalidade… embora num outro aspeto até acompanhe a tendência por mostradores gradientes tão popular na década em curso, inclusivamente em exemplares da tipologia tool watch. À primeira vista (e à segunda…), o Sub 200 II mantém a arquitetura fundamental do Sub 200 original: caixa em aço com perfil elíptico estanque a 200 metros, luneta unidirecional, vidro do tipo glassbox, legibilidade clara e funcional. Visualmente, e mesmo sendo uma execução de perfil mais fino, a maior diferença apresentada pela nova geração reside precisamente no mostrador gradiente em quatro das cinco referências disponíveis; a exceção é a variante de mostrador preto Sharkhunter convencional.

O perfil mais elegante da caixa Sub 200 II na versão Sharkhunter Vintage Gray | Foto: Doxa

Pela primeira vez, a Doxa — que já havia utilizado ocasionalmente o subterfúgio — introduz uma linha completa com mostradores fumados (degradé) e acabamentos raiados sunburst, criando maior profundidade visual e sofisticação estética. Trata-se de um aspeto relevante porque marca uma transição subtil: o Sub 200 II deixa de ser apenas o diver neo-vintage de preço acessível que é o Sub 200 para se posicionar como um relógio de uso diário mais versátil e estilizado. Um relógio de mergulho casual chic

Na sede da Doxa: Jan Edocs à conquista do mundo | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

«Estamos a oferecer muito relógio pelo preço que tem e o feedback tem sido muito bom», diz Jan Edocs, o CEO da marca. «Relativamente às pesquisas que fizemos, é evidente que a tendência generalizada é a de baixar o diâmetro, mas constata-se que em mercados-chave de sports watches, como o americano, os modelos desportivos com tamanhos pequenos estão no mercado paralelo com grandes descontos! Não queremos contentar todos, da minha parte acho que não há mercado para divers de 38mm ou menos; um relógio de mergulho que se quer legível debaixo de água mas que tenha 37mm de diâmetro é uma anedota. Para além disso, o Sub 200 original de 42mm permanece na coleção». Tem razão: num diver, a luneta normalmente ocupa espaço significativo no diâmetro e em formatos mais pequenos a área de mostrador fica… minúscula.

Continuidade mecânica

No interior do Sub II, a Doxa manteve uma abordagem conservadora com o recurso ao Calibre SW200-1 da Sellita, com uma frequência de 4 Hz e um mínimo de 38 horas de reserva de carga (a autonomia anda entre as 38 e as 41 horas). A opção assumida garante fiabilidade e facilidade de manutenção, mas também evidencia que, mecanicamente, o Sub 200 II não evolui face ao antecessor Sub 200 — existindo outros movimentos genéricos no setor com maior autonomia.

Sub 200 II Sharkhunter com mostrador preto uniforme e bracelete milanesa | Foto: Doxa

Ou seja: a inovação no Sub 200 II é sobretudo ergonómica e estética. A Doxa preferiu manter a escolha num calibre suíço automático muito testado com provas de fiabilidade e de fácil manutenção, algo que está perfeitamente de acordo com a filosofia prática da marca de Bienne/Biel. E que, custando 1.590 euros, lhe permite manter-se muito competitiva num segmento particularmente competitivo de relógios de mergulho entre os 1.000 e os 2.500 euros, face à concorrência de divers retro de especialistas como a Oris (Divers Sixty-Five), a Longines (Legend Diver) e a Seiko (Prospex), sem esquecer todas as propostas ainda mais baratas de uma infinidade de micromarcas que têm assoberbado o mercado.

Salas de assemblagem na sede da Doxa em Bienne | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

A primeira geração do Sub 200 destacou-se como um diver acessível com forte identidade e uma alternativa estética segura ao histórico formato tonneau da Doxa, oferecendo uma excelente relação preço/qualidade na casa dos 1.100 euros.  O Sub 200 II mantém esse papel, mas com um preço ligeiramente superior devido à maior sofisticação e uma nuance importante: apesar dos mostradores fumé e dos detalhes bege serem um piscar de olhos ao passado, é menos heritage e mais produto contemporâneo de estética sofisticada. Mesmo contrariando a tendência atual com a passagem dos 42 para os 44mm, embora seja um relógio que veste mais pequeno devido às suas asas curtas.

Evolução estratégica

O Doxa Sub 200 II acaba por ser uma reinterpretação estratégica que vem revitalizar o catálogo da Doxa. Mantém a base do modelo original de 2019, mas introduz mudanças suficientes para o reposicionar: maior presença no pulso, estética mais rica e vocação mais versátil — um diver acessível que procura equilibrar herança, design contemporâneo e uso quotidiano fora de água.

Sub 200 II Caribbean com mostrador dégradé azul e destaques bege | Foto: Doxa

Com o Sub 200 II, a Doxa conseguiu atualizar um modelo de sucesso sem o descaraterizar. Nem todos irão concordar com o aumento de tamanho ou com a ausência de evolução mecânica. Mas, segundo o seu responsável Jan Edocs, a marca de Bienne não quer competir diretamente com relógios discretos ou óbvios; quer oferecer uma alternativa mais assertiva, até porque entretanto já tinha lançado o Sub 200T de 39mm (em 2024) com a inconfundível estética Doxa. E depois há o design de mostrador e a utilização da cor, duas vertentes nas quais a Doxa é muito forte.

Sub 200 II Sea Emerald de mostrador verde gradiente e bracelete Tropic | Foto: Doxa

O novo Sub 200 II não segue (pelo menos, para já) a tradicional paleta total de cores icónicas da marca existente em cada linha — ou seja, o cor de laranja Professional, o turquesa Aquamarine, o amarelo Diving Star, etc.; mantém apenas o azul Caribbean em modo gradiente e o preto Sharkhunter com a adição do preto/cinza gradiente Sharkhunter Vintage Gray,  juntando depois o verde Sea Emerald já visto no Sub 200T e o novo Redcoral em cor de vinho com caixa preta em DLC.

A nova bracelete tem um sistema de fixação mais seguro do que as milanesas comuns | Foto: Doxa

Quanto às braceletes, há duas opções de conotação vintage: borracha cauchu inspirada pela histórica bracelete de mergulho Tropic perfurada e malha metálica milanesa, alternativa retro de execução moderna que constitui novidade no contexto da Doxa. «A nossa ideia de apresentar uma bracelete milanesa foi surpreender; mas quisemos fazer a diferença, apresentando uma milanesa com buracos e fivela deslizante em vez dos fechos habituais das milanesas, que se abrem demasiado facilmente».

Na coleção

A introdução do Sub 200 II não é apenas uma atualização de um modelo existente — é uma peça-chave na reorganização do catálogo da Doxa, que se estrutura hoje em três grandes blocos: entrada/lifestyle, core histórico, e tool watches profissionais. O novo Sub 200 II como que liga — e ao mesmo tempo separa — esses universos.

Sub 200 II Redcoral com bracelete milanesa com acabamento DLC a combinar com a caixa | Foto: Doxa

A coleção atual da Doxa organiza-se de forma clara. No preço de entrada estão o Sub 200 (que se mantém, pelo menos por enquanto) a 1.100 euros e o Sub 200 II a 1.590 euros; a interpretação moderna da linguagem Doxa está a cargo do Sub 200T e do Sub 600T; o núcleo histórico (puro ADN da marca) é representado pelo Sub 300 e pelo Sub 300T; os modelos profissionais de mergulho extremo são personificados pelo Sub 750T (lançado o ano passado no Geneva Watch Days) e pelo Sub 1500T; o exercício de estilo experimental é dado pelo Sub 300 Carbon ultraleve; e depois há as edições limitadas/colaborações, como os modelos Clive Cussler ou Seddiqi para os EAU.

Dois relógios DOXA SUB 200 com mostrador azul e bisel em aço polido: à esquerda com bracelete em aço tipo 'beads of rice' e à direita com bracelete em borracha azul.
A existente linha Sub 200 de 42mm mantém-se na coleção | Fotos: Doxa

O Sub 200 II vem juntar-se ao irmão Sub 200 no primeiro patamar da gama, que é um dos mais importantes no plano comercial (entre os 1.000 e os 1.500 euros). A introdução de mostradores fumé com acabamento radial e um perfil mais fino revela que a marca deseja que seja o Doxa para se usar todos os dias — não o típico Doxa do aficionado puro e duro. Porque o novo Sub 200 II é o único modelo verdadeiramente mainstream na forma e no estilo, já que todos os outros (200T, 600T, 300, 300T, 750T, 1500T) partilham um formato de caixa tonneau e a identidade visual clássica da Doxa… uma estética que é reconhecidamente mais de nicho.

relógios turquesa, verde e laranja no stand da Doxa no After Time by Milano Watch Week
Um colorido trio da Doxa formado pelo Sub 200, Sub 200T e Sub 300 | Foto: After Time by Milano Watch Week

A Doxa sabe que o seu ADN é muito forte… mas que também pode ser algo limitador. A caixa tonneau é icónica e inamovível, mesmo que possa afastar alguns compradores. O Sub 200 II mantém o espírito Doxa e remove algumas barreiras que possam existir. É por isso que se revela como uma peça mais estratégica do que técnica e que, melhorando o que já acontecia com o antecessor Sub 200, permite à marca abranger um público mais amplo. E isso vale mais do que apresentar 300 metros de resistência à água.

Sub 200 II Caribbean com bracelete Tropic em cauchu perfurado | Foto: Doxa

Para além disso, o aumento de tamanho, os mostradores fumé e a continuidade mecânica revelam uma estratégia clara: não competir diretamente com a Oris, Longines ou Seiko nos seus próprios termos — mas oferecer uma alternativa com identidade forte. O Sub 200 II pode não ter as métricas objetivas dos outros modelos da Doxa, mas é um relógio da tipologia diver com muita personalidade.

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