Um relógio espacial numa oferta especial particularmente alargada e onde se distinguiram uma série de modelos de mostrador azul sob a chancela Le Petit Prince.
Em Genebra, no Watches and Wonders 2026
A edição deste ano do Watches and Wonders foi provavelmente a mais ambiciosa para a IWC desde a grande renovação da gama Ingenieur, em 2023. A manufatura de Schaffhausen apresentou um conjunto de novidades particularmente alargado e notou-se uma clara aposta em três pilares fundamentais da sua identidade contemporânea: a relojoaria técnica de maior complexidade com as complicações tradicionalmente associadas à marca, o universo aeronáutico associado aos Pilot’s Watches com a inesperada adição de uma proposta conceptual, e a consolidação do Ingenieur enquanto relevante pilar da coleção.

Num stand que misturou engenharia aeronáutica com poesia cósmica graças à presença do Principezinho de Saint-Exupery sentado numa lua, a IWC conseguiu equilibrar narrativa e maturidade. Foram desveladas peças quase conceptuais, como o peculiar Pilot’s Venturer Vertical Drive inspirado no espaço ou o luminescente Big Pilot’s Watch Perpetual Calendar Ceralume; houve muitos modelos Le Petit Prince destinados a reforçar a dimensão lírica da coleção; houve complicações de produção limitada; e houve um desenvolvimento sério da linha Ingenieur para além do simples revivalismo do ícone desenhado por Gérald Genta nos anos 70.

Ou seja, a IWC desvelou novidades que fazem a ponte para o seu passado, afirmam legitimidade técnica no presente e lançam um olhar para o futuro… com um pequeno reparo: já é tempo de melhorarem certas braceletes e fechos de báscula, algo que a própria marca reconhece. Aqui ficam os vetores principais do que vimos em Genebra, como uma recente nota lisboeta em guisa de rodapé final.
1. Pilot’s Venturer Vertical Drive
O grande statement piece da IWC no salão Watches and Wonders foi sem dúvida o Pilot’s Venturer Vertical Drive, um modelo conceptual que pode funcionar como manifesto técnico da manufatura. Desenvolvido em parceria com a empresa aeroespacial norte-americana Vast, foi concebido especificamente para futuras missões orbitais ligadas à estação espacial comercial Haven-1 — tornando-se no primeiro relógio mecânico da história da IWC desenhado de raiz para utilização em voo espacial tripulado. O espaço foi mesmo uma tendência da edição deste ano do Watches and Wonders.

A peça rompe completamente com a arquitetura tradicional dos famosos Pilot’s Watches da manufatura de Schaffhausen. A caixa de 44,3 mm combina cerâmica branca de óxido de zircónio com elementos em Ceratanium, enquanto a operação do relógio abandona totalmente a coroa convencional: todas as funções são controladas através de um engenhoso sistema patenteado de luneta rotativa associado a um seletor basculante lateral (designado ‘rocker switch’). Dependendo do modo selecionado, a rotação da luneta permite dar corda ao movimento, acertar a hora local ou ajustar o segundo fuso horário da missão. O sistema foi especificamente desenvolvido para permitir a sua operação com luvas espaciais pressurizadas.

A designação Vertical Drive do nome refere-se precisamente à nova arquitetura de transmissão mecânica vertical entre a luneta e o movimento — uma solução híbrida particularmente sofisticada que substitui funcionalmente a tradicional interação física entre os dedos e a coroa convencional. Em termos relojoeiros, é talvez a inovação ergonómica mais interessante apresentada pela IWC nos tempos mais recentes. E o mais notável é que a marca não caiu na tentação de transformar o relógio num gadget futurista pouco prático: apesar da complexidade conceptual, a leitura mantém-se extremamente limpa e funcional.

No interior encontra-se o novo Calibre 32722 de corda automática, equipado com módulo GMT integrado, frequência de 4 Hz e uma impressionante reserva de corda de 120 horas. O Pilot’s Venturer Vertical Drive apresenta simultaneamente hora ‘Home’ e hora ‘Mission’, concebidas para ajudar astronautas a gerir o tempo terrestre e orbital — algo particularmente relevante num ambiente em que podem ocorrer até 16 ciclos dia/noite por cada 24 horas terrestres.

Ao contrário do que inicialmente parecia, o Pilot’s Venturer Vertical Drive não é edição limitada, embora a produção seja restrita. A IWC posiciona-o como uma nova plataforma experimental de alta tecnologia dentro da coleção Pilot’s Watches. O preço anunciado ronda os 27.500 euros e o que veio para a boutique da marca em Lisboa já houve um vendido. Embora seja inevitavelmente um objeto de nicho, foi a novidade mais marcante apresentada pela IWC em 2026.
2. Big Pilot’s Watch
A linha Big Pilot’s Watch recebeu três das peças mais impressionantes apresentadas pela IWC no Watches and Wonders: o Big Pilot’s Watch Perpetual Calendar Ceralume, o Big Pilot’s Watch Perpetual Calendar ProSet e o Big Pilot’s Watch Constant Force Tourbillon.

O Big Pilot’s Watch Perpetual Calendar Ceralume foi literalmente o mais brilhante dos três. A IWC aplicou pela primeira vez a tecnologia Ceralume — mistura patenteada de cerâmica e Super-LumiNova, numa colaboração com a RC Tritec — a uma caixa grande Big Pilot de 46,5mm e o resultado é quase surreal: durante o dia o relógio apresenta uma aparência relativamente discreta em branco mate; no escuro transforma-se numa massa luminosa azul-esverdeada quase fantasmagórica… e até a bracelete é luminescente!


É motorizado pelo o Calibre 52616 automático com calendário perpétuo Kurt Klaus e sete dias de reserva de marcha. A edição está limitada a 250 exemplares e o preço em Portugal anda nos 118.000 euros.

Já o Big Pilot’s Watch Perpetual Calendar ProSet representa uma abordagem mais técnica e contemporânea. A designação ‘ProSet’ refere-se ao novo sistema simplificado de ajuste ultrarrápido do calendário perpétuo desenvolvido pela manufatura de Schaffhausen. A caixa em ouro rosa de 42mm combina-se com um mostrador verde azeitona e o novo Calibre 82665 automático otimizado para maior resistência magnética e eficiência de carga bidirecional Pellaton. Produção limitada a 250 peças. Preço aproximado: 96.000 euros.

Quanto ao Big Pilot’s Watch Constant Force Tourbillon, inclui um Calibre 94800 de carga manual que combina um turbilhão volante, sistema de força constante com fuso e corrente miniaturizada, dupla apresentação das fases da lua com leitura para ambos os hemisférios e reserva de marcha de quatro dias. A caixa em Armor Gold (com uma microestrutura que torna a liga mais rigidez do que ouro rosa tradicional) mede 46,2mm e a edição é limitada a 25 exemplares. O preço, sob consulta, deve ultrapassar os 420.000 euros.

3. Le Petit Prince
A linha Le Petit Prince continua a ocupar um lugar muito particular dentro do universo IWC. A parceria entre a marca e a instituição criada pelo escritor-aviador Antoine de Saint-Exupéry começou oficialmente em 2006 e tornou-se progressivamente numa das identidades visuais mais reconhecíveis da manufatura. O azul profundo dos mostradores Le Petit Prince — inspirado simultaneamente no céu noturno e nas ilustrações originais do livro ‘Vol de Nuit’ — estabeleceu-se como uma referência cromática autónoma dentro do catálogo da marca.

Este ano, a IWC decidiu expandir significativamente a linha, transformando-a quase numa família transversal ao catálogo. Os fundos dos vários modelos são adequadamente personalizados com a figura do Principezinho aplicada de modo distinto — desde a gravura em fundo fechado ou a inclusão em relevo na massa oscilante quando o fundo é transparente em vidro de safira.

O topo da gama são os novos Big Pilot’s Watch Perpetual Calendar ProSet Le Petit Prince em caixas de cerâmica branca ou em aço com, respetivamente, 42,9mm e 42mm de diâmetro; ambas apresentam o tal mostrador azul profundo com efeito raiado e o novo calibre automático 82665 ProSet com sete dias de reserva de marcha e o calendário perpétuo completamente ajustável através da coroa inventado pelo lendário mestre Kurt Klaus na década de 80.

A linha inclui também três Pilot’s Watch Chronograph Le Petit Prince: um de 43mm em aço e dois de 41mm, um em aço e outro em cerâmica branca. Todos eles equipados com o Calibre 69385 de corda automática com 46 horas de autonomia, roda de colunas e sistema Pellaton reforçado por componentes cerâmicos. As duas variantes em aço apresentam a particularidade de ter os ponteiros luminescentes delineados a ouro para um toque suplementar de requinte. Os preços começam à volta de 8.900 euros para o aço; a variante cerâmica branca sobe para aproximadamente 13.400 euros.


O Pilot’s Watch Mark XX Le Petit Prince de 40mm surge em versões de ouro rosa e aço, ambas alimentadas pelo calibre automático 32112 com cinco dias de reserva de marcha. O preço começa nos 6.700 euros. Já o Pilot’s Watch Automatic 36 Le Petit Prince aposta num posicionamento unissexo que mantém o mesmo ADN cromático azul profundo numa caixa em aço de 36mm equipada com o calibre automático 32102; preço: 5.900 euros.

Finalmente, e fora do âmbito do Pilot’s Watch, o Portofino Automatic Day & Night 34 Le Petit Prince representa a surpresa mais elegante da linha dedicada ao Principezinho de Saint-Exupéry. A IWC arriscou declinar o conceito Le Petit Prince no formato Portofino através de um mostrador azul lunar delicadamente decorado e uma complicação day/night poética extremamente bem conseguida. O relógio utiliza o calibre automático 35180 e custa aproximadamente 8.200 euros.

4. Ingenieur
Depois do enorme sucesso do relançamento do Ingenieur em 2023 (uma coleção cápsula então com quatro peças) e da adição de um novo tamanho midsize em 2025 paralelamente ao modelo dedicado ao personagem de Brad Pitt no filme F1 e a estreia da variante com calendário perpétuo, a IWC decidiu expandir seriamente a linha em 2026. Sempre com uma adaptação do design integrado de Gerald Genta e o padrão ‘grid’ no mostrador, as novas referências introduzem materiais, complicações e proporções diferentes — dando ao Ingenieur numa verdadeira plataforma contemporânea… repetindo de modo distinto o que já havia sucedido com a anterior geração do Ingenieur, estreada há cerca de 20 anos.

O destaque principal no plano estético talvez possa ser atribuído ao novo Ingenieur Automatic 42 Ceramic num espetacular verde musgo com destaques a ouro. E a complexa geometria integrada do Ingenieur apresenta-se especialmente atraente numa execução em cerâmica tão peculiar, como já se tinha provado antes na versão ‘óbvia’ em cerâmica preta. Para além do Ceratanium e do Ceralume, a IWC especializou-se em cerâmica colorida e a integração entre caixa, bracelete e luneta com cinco parafusos em ouro revela-se particularmente atraente ao vivo. O relógio utiliza o calibre automático 82110 com 60 horas de reserva de corda.

Já o Ingenieur Tourbillon 41 marca a estreia de um turbilhão volante na linha, colocado numa abertura às 6 horas que requer uma ligeira adaptação da curvatura do mostrador e da própria luneta. Tão nobre complicação só podia ficar associada ao chamado metal precioso, com o mostrador verde-azeitona (uma tonalidade muito querida este ano pela IWC) a oferecer um sumptuoso contraste com a caixa em ouro rosa de 41,6mm. O Calibre 82905 de carga automática oferece 80 horas de autonomia. Limitado a 100 exemplares.

O Ingenieur Perpetual Calendar 41 surge numa nova versão em titânio de visual monocromático graças ao mostrador acinzentado (após a estreia ter sido feita com mostrador azul numa caixa em aço), talvez a evolução mais importante da linha por ficar associada a uma grande especialidade da IWC. Equipado com o Calibre 82650, integra o calendário perpétuo idealizado por Kurt Klaus sem comprometer demasiado as proporções associadas ao diâmetro de 41,6mm.

O Ingenieur Automatic 35 com luneta em ouro cravejada com 45 diamantes abrilhanta a extensão da linha para uma variante joalheira de dimensões mais compactas e teve como parceiro de lançamento o Ingenieur Automatic 35 em aço e mostrador azul — duas novas variantes que complementam as já existentes versões de 35mm em aço (de mostrador prateado ou preto) e ouro.

Nota lisboeta
Numa referência de rodapé, a notícia de que a IWC se associou ao Campeonato Nacional de Profissionais Timestamp promovido pela Federação Portuguesa de Golfe e pela PGA de Portugal.

O anúncio foi feito nesta quinta-feira numa unidade hoteleira de Lisboa vizinha da boutique da IWC na Avenida da Liberdade, para onde foram os convidados ter a oportunidade de experimentar algumas das novidades introduzidas pela manufatura de Schaffhausen no Watches and Wonders — com destaque para várias peças Le Petit Prince e para o Ingenieur Tourbillon 41 em ouro rosa.





