Da principal semana do ano para a indústria relojoeira e dos respetivos eventos emergiram várias tendências e algumas linhas mestras. Aqui ficam as conclusões saídas dos quatro primeiros meses do ano.
Foi uma semana intensa, talvez mesmo a mais intensa desde a extinção da histórica feira de Basileia e adesão geral a Genebra. O salão Watches and Wonders cresceu para um número recorde de 65 marcas expositoras na Palexpo e os últimos três dias abertos ao público tiveram enorme afluência, sinal de que a relojoaria mecânica e de prestígio está a ganhar adeptos entre a chamada ‘Geração iPhone’ — que, supostamente, não precisaria de relógio de pulso para ver as horas e estaria mais propensa a cingir-se aos smart watches.

Watches and Wonders à parte, todos os restantes eventos paralelos também foram considerados um sucesso tendo em conta a participação — desde a conglomeração de micromarcas no novo Chronopolis realizado no Quai de l’Île até ao Time to Watch na vizinhança da Palexpo, para além do habitual salão da Académie des Créateurs et Horlogers Indépendants (ACHI), dos múltiplos showrooms nos hotéis mais importantes da cidade de Calvino e das apresentações ‘em casa’ das marcas sediadas em Genebra (como a F.P. Journe, a MB&F na M.A.D. Gallery ou a Urwerk). Aqui ficam algumas tendências e conclusões.
Tamanho Conta
O tamanho é a especificidade que mais se fala quando se analisa um relógio. E não há dúvida de que a tendência continua a apontar para um decréscimo dos diâmetros, mesmo em relógios mais desportivos e de tipologia que exigiria normalmente um formato maior.

O sweet spot atual está mesmo a sedimentar-se entre os 35 e os 39mm. E um dos grandes protagonistas do Watches and Wonders foi, precisamente, o novo Octo Finissimo de 37mm — que ‘encolheu’ 3mm relativamente ao tamanho original: foram precisos três anos e um novo calibre dotado de microrrotor para ‘aparar’ o ex-libris da Bulgari, que passa por ser o maior ícone da relojoaria contemporânea. E os diâmetros menores fizeram-se acompanhar de espessuras mais finas; os relógios ultraplanos são definitivamente um must dos tempos que correm.

Na relojoaria de pulso, um único milímetro faz uma enorme diferença e qualquer calibre novo que seja mais pequeno e especialmente plano tem de se debater com os seus próprios desafios relativamente à estabilidade de funcionamento e reserva de corda. A Grand Seiko apresentou os seus mais pequenos divers de sempre, com 40,8mm. Até o Big Pilot’s Watch Perpetual calendar da IWC já não é tão big, uma vez que passou dos 46 para os… 42mm!

Também a Patek Philippe apresentou um Nautilus de aniversário (meio século de vida!) mais reduzido e que todos apreciaram. Na senda do Saxonia de 34mm do ano passado, a A. Lange & Söhne estreou um mui badalado Saxonia Perpetual Calendar com 36mm. E a estrela da Oris foi o Star, reeditado no tamanho original de 35mm. Esse diâmetro de 35mm é precisamente o novo tamanho do field watch com que a Serica se lançou e que foi desvelado esta semana, se bem que já o tivéssemos experimentado em Paris no mês de março.

Em contracorrente, a Panerai — para gáudio dos Paneristi — foi no sentido inverso e respeitou o seu legado histórico ao apresentar as suas novidades Luminor nos pujantes tamanhos tradicionais da marca florentina: 44 e 47mm.
Tonalidades Suaves
O crescimento da vaga ‘quiet luxury’ (também apelidada de ‘old money’) na moda, através de exclusivas marcas de vestuário italianas que fomentam a discrição sem logos como a Loro Piana, Brunello Cucinelli ou Eleventy, parece ter afetado as tendências cromáticas da indústria relojoeira: veem-se cada vez mais cores suaves numa palette que anda muito entre o off-white (nesse sentido, vê-se cada vez mais o recurso a braceletes brancas), o beje, os dourados suaves, os acastanhados e os acinzentados.

Tudo muito soft, como a nova coleção Master Control Chronometre da Jaeger-LeCoultre revela. Essa combinação também pode ser encontrada no Oyster Perpetual ‘100 Years’ que a Rolex lançou para celebrar os 100 anos da caixa Oyster. Embora com tonalidades diferentes mas sempre muito suaves, como o azul ou o rosa, a Parmigiani Fleurier continua a seduzir com a linha Tonda.

Mesmo a linha mais desportiva Formula 1 Solargraph da TAG Heuer surgiu em tons pastel. A suavidade cromática é uma tendência com classe e que se saúda… porque o charme discreto da relojoaria fica sempre bem.
Full Metal
A influência da Rolex (cuja receita de sucesso sempre assentou muito na popular conjugação dos seus relógios com braceletes metálicas) e a recuperação do design integrado que ditou o advento do relógio moderno na década de 70 (a maior tendência estrutural de design nos últimos dez anos) têm-se refletido na utilização cada vez mais frequente de braceletes metálicas nos últimos tempos — sejam elas nos referidos modelos da tipologia do design integrado ou em relógios de asas tradicionais.

No último caso, e na senda do que já aconteceu no ano passado (com a malha milanesa que a Jaeger-LeCoultre ‘inventou’ para o seu Reverso e da nova bracelete Settimo concebida pela Rolex especialmente para o 1908), também a Cartier surpreendeu com um novo tipo de bracelete de malha fina para o seu Santos-Dumont. E que bem que fica!

Para além disso, e numa era em que o ouro está mais caro do que nunca, viram-se sobretudo soluções metálicas para os modelos em aço e titânio. E o relógio full metal que mais impressionou no Watches and Wonders foi o Hautlence Kubera.
Microajustes
Tem sido uma pecha da indústria relojoeira e algo que chega mesmo a ser incompreensível numa indústria do luxo e num setor supostamente inovador: há muito que marcas com preços acima dos 1.000 euros deveriam dotar obrigatoriamente as suas braceletes metálicas de um sistema de microajuste que não só permita adequar o diâmetro do pulso às flutuações de peso como às diferenças de temperatura ao longo do ano (com o calor, o pulso incha mais no verão). Um desenvolvimento óbvio que deveria estar normalizado há pelo menos duas décadas e que só agora começa a acontecer, quando praticamente todas as marcas de prestígio já adotaram sistemas de troca rápida. O microajuste está a demorar mais tempo.

Mas mais vale tarde do que nunca. A Zenith deu o exemplo ao apresentar um novo sistema patenteado de microajuste que exigiu três anos de desenvolvimento e a Vacheron Constantin também aplicou a receita à bracelete do novo Overseas em platina, ao passo que a Chopard (no Alpine Eagle) e a Bulgari (no Octo Finissimo 37) fizeram o mesmo — mas, a título de exemplo, a Formex, marca de menores dimensões em exposição no Chronopolis, já equipa os seus relógios de 2.000 euros com um sistema próprio de microajuste nas braceletes metálicas e nos fechos de báscula há vários anos.
Luminescência
O desenvolvimento da indústria do material luminescente adaptado à relojoaria também tem permitido interessantes exercícios de estilo. A Tritec, empresa suíça que produz o material luminescente Super-LumiNova em parceria com a japonesa Nemoto & Co, tem-se mostrado inovadora no alargar da paleta cromática e no aperfeiçoamento da luminescência — e as marcas agradecem. Por exemplo, a Norqain apresentou a nova versão do seu cronógrafo Enjoy Life em duas variantes nas quais o topping do gelado que polvilha o mostrador é luminescente.

Mas o mais brilhante exemplo de luminescência no Watches and Wonders não se cingiu ao mostrador: o Pilot’s Watch Perpetual Calendar da IWC apresentou uma inédita caixa de cerâmica em Ceralume totalmente luminescente (a Bell & Ross já tinha feito algo de parecido, mas noutro material composto), sendo que essa luminosidade se estende também ao mostrador e à própria bracelete em cauchu.

Por sua vez, a A. Lange & Söhne lançou mais um excelente e superlativo exemplar da sua celebrada linha Lumen, o complexo Lange 1 Tourbillon Perpetual Calendar.
Aeroespacial
Já se sabe que o desenvolvimento e produção de um qualquer exemplar relojoeiro de uma marca de prestígio demora sempre algum tempo e, mesmo que os prazos sejam encurtados nos tempos modernos, são sempre necessários pelo menos vários meses até à sua concretização — ou mesmo anos, quando envolvem movimentos novos ou calibres adaptados.

Pelo que foi mesmo coincidência que a recente incursão para lá da lua e até onde o ser humano nunca tinha chegado tenha ocorrido quase ao mesmo tempo da Watches and Wonders, onde algumas marcas lançaram modelos inspirados no espaço — como a IWC (com o Pilot’s Venturer Vertical Watch) e a Bremont (com o Supernova Chronograph). Uma interessante e algo inesperada vertente aerospacial que, no entanto, está muito longe das dezenas de novos modelos diretamente influenciados pela corrida do espaço e pelas séries de ficção científica que anualmente eram apresentados na década de 70.
Good Vibes
O factor feelgood também merece destaque, e mais uma vez foi nesperadamente implementado por aquela que é talvez a mais conservadora das marcas.

Três anos após ter lançado o Oyster Perpetual com mostrador Celebration e o Day-Date com um padrão de mostrador em puzzle e palavras animadoras/emojis nas janelas do dia e da data, a Rolex tirou da cartola o chamado ‘Jubilee Motif’ para um dos modelos comemorativos dos 100 anos da caixa Oyster.

E a Norqain apresentou a segunda geração do popular conceito Enjoy Life estreado em 2025 — o Enjoy Life ‘Sprinkles’, com duas versões de cronógrafo dotadas de um mostrador polvilhado com topping (para mais, luminescente!) e o inevitável gelado a cada sete dias no mostrador.

No Chronopolis, a Hegid apresentou um novo relógio de mostrador pop em parceria com o artista plástico Pieter Ceizer. Baptizado ‘Good Times’ e com palavras-chave positivas no disco da data, o colorido modelo apresenta o sistema próprio de troca de caixa da marca parisiense: o ‘contentor’ formado pelo mostrador e movimento pode ser adaptado a outra caixa da marca, como a caixa mais geométrica da linha Mirage.
Melhor Versão
Even Better Than The Real Thing, já cantavam os U2: na sequência do que vem sucedendo no presente milénio através da moda das reedições/reinterpretações, várias marcas reputadas apresentaram significativos updates que tornaram os seus ícones melhores do que nunca, como sucedeu com a TAG Heuer e a Hublot.

No caso da TAG Heuer, o emblemático Monaco recebeu uma caixa mais ergonómica e sobretudo passou a receber movimentos de manufatura aperfeiçoados no modelo ‘tradicional’ (finalmente sem os pequenos segundos ‘fantasma’ às 6 horas!) e sobretudo na nova versão Evergraph, dotada de um revolucionário calibre que dispensa vários componentes presentes nos movimentos cronográficos tradicionais. Quanto à Hublot, a nova série Big Bang Reloaded também surge especialmente apelativa e com a nova garantia 5+5 anos que a marca revelou. Outras marcas foram ‘pescar’ novos modelos ao seu passado, como a Tudor com o Monarch, a Favre Leuba com o Harpoon, a Cartier com o Roadster e a Credor com o Locomotive.
Pedras no Mostrador
A tendência de mostradores em pedra semi-preciosa não é propriamente nova e já se faz sentir há pelo menos dois anos, mas voltou a ser reforçada na grande semana genebrina — com múltiplas marcas a investir em mostradores coloridos ou mesmo, numa faixa de preço superior devido à raridade cósmica, em meteorito.

A utilização de pedras semipreciosas especialmente coloridas como a sodalite (no Piaget Polo 79), o ónix e o jaspe (nos G.F.J. da Zenith), aventurina (inesperadamente verde num dos Day-Date da Rolex), o tiger eye ou a malaquite vem reforçar uma tendência não só decorativa devido aos padrões fascinantes e únicos de cada mineral, mas também cromática e texturada. Essa individualidade vem reforçar o prestígio dos modelos e das marcas que optam por esse recurso para os seus mostradores.

Num plano mais acessível, a própria Baltic está nessa situação, com um trio de bonitos worldtimers que mostrou no Chronopolis — onde a Dennison voltou a mostrar a sua grande variedade na especialidade.
Titânio e Tântalo
Com o preço do ouro a atingir patamares tão espatafúrdios que, no mercado secundário, há mesmo apelativos relógios no precioso metal que estão a ser fundidos em vez de irem parar ao pulso, houve alguma contenção nos modelos apresentados no Watches and Wonders. A título de exemplo, o novo Master Control Chronomètre Date da Jaeger-LeCoultre custa 16.100 euros na sua versão em aço e 46.100 na versão em ouro rosa — um valor 30.000 euros mais elevado, também por causa da bracelete no metal precioso. Contracorrente, mas de modo pertinente tendo em conta os seus galões, a Rolex introduziu uma nova liga de ouro de suave tonalidade denominada Jubilee Gold.

Estando o ouro tão caro, muitas marcas viraram-se para o titânio enquanto material de prestígio com múltiplas qualidades (leveza, resistência, anti-alérgico) e que, nalguns casos, surgiu muito bem trabalhado com acabamentos de alta-relojoaria — como sucede na elogiada série Overseas Dual Time Cardinal Points da Vacheron Constantin, constituída por quatro modelos distintos batizados segundo os pontos cardeais.

Mas o tântalo, que vinha sendo raramente utilizado devido à dificuldade de o trabalhar (e muito cobiçado no Chronomètre Bleu da F.P. Journe), surgiu inesperadamente numa nova edição G.F.J. da Zenith e no Concept QP da H. Moser & Cie.
Mecânica à Vista
A tendência openworked, uma variante não tão aberta dos mostradores esqueletizados, é já um recurso habitual na relojoaria e surge inevitavelmente em variantes especiais de praticamente todos os modelos de design integrado do mercado — como o provou a Corum, quando relançou a sua linha Admiral. A exibição da exuberância mecânica é uma valência da relojoaria fina.

Com maior ou menor índice de visibilidade, distinguiram-se no Watches and Wonders o Gerald Charles Masterlink Perpetual Calendar, o Roger Dubuis Excalibur Biretrograde Perpetual Calendar e os novos Zenith Chronomaster Sport Skeleton. Até o Rexhep Rexhepi Chronohraph Flyback, por muitos considerado o relógio do ano até ao momento, apresenta submostradores translúcidos.





