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Zenith El Primero A384: um ícone original

O nosso leitor convidado, António Martins, conta-nos a história que o liga ao Zenith El Primero A384 original, um relógio que surgiu na sua vida sem estar à espera e que surgiu mesmo na altura certa. Afinal, poucos meses depois, a Zenith acabaria por lançar a reedição fiel desse mesmo relógio de pulso, o El Primero A384 Revival.  Uma história bem pertinente contada por ‘Actos’, no ano em que o El Primero celebra o seu 50.º aniversário.

Acto I – O encontro

A tarde era de outono, dirigi-me, como habitualmente, para mais uma tertúlia relojoeira. O encontro foi marcado numa relojoaria de prestígio na avenida da Liberdade em Lisboa. Fazia frio lá fora, mas no interior da loja deparei-me com um ambiente bem acolhedor de grande convívio, entre uns canapés e uma bebida espirituosa – tudo muito bem embrulhado por uma suave música envolvente, talvez um jazz mais calmo, não consigo precisar!

O mote do encontro era a coleção da Zenith e, com a participação da empresa importadora, pudemos apreciar modelos como o Defy El Primero e o Pilot, entre outros soberbos relógios. No decorrer do evento fomos ainda brindados por uma apresentação dedicada à Zenith e à sua história. A verdade é que alguns apontamentos da marca eu já conhecia, nomeadamente, a razão que está por trás do nome El Primero: a sua origem hispânica procurava traduzir o primeiro cronógrafo automático, apresentado no final dos anos 60. Porém, esta história tem muito mais para explorar, tendo em conta que em causa está ainda o consórcio Heuer/Breitling/Buren/ Dubois-Depraz, responsável também, na mesma altura, pelo lançamento de um movimento cronográfico automático (o Chronomatic). Ao que parece também a Seiko já estava a trabalhar no seu cronógrafo automático, pelo que foi uma interessante corrida tripartida que saltou para a lenda a partir desse ano de 1969. Essa corrida surge contada num texto publicado no site da Espiral do Tempo no primeiro semestre deste ano.

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António Martins com o seu Zenith El Primero A384. © Paulo Pires / Espiral do Tempo

A minha pesquisa sobre esta disputa do pódio dos primeiros cronógrafos automáticos remonta há mais de 10 anos, aquando da minha aquisição de um Breitling Chronomatic, e é um dos motivos pelos quais fiquei fascinado pelo Zenith El Primero A384 original, o relógio central desta história. Por outro lado, também o inaudito episódio protagonizado por Charles Vermot me cativou bastante. Este funcionário da Zenith teve a visão (ou teimosia, ou ambos) de desafiar os novos  patrões americanos ao esconder no sótão da fábrica as ferramentas e os planos técnicos do El Primero, quando a marca foi vendida à Zenith Radio Corporation de Chicago. Na altura, acreditava-se que o futuro seria o quartzo e, em 1975, a Zenith Chicago decidiu encerrar o fabrico do El Primero, ordenando ainda que todas as ferramentas, componentes e praticamente todo o resto do edifício deveriam ser vendidos ou descartados. Este conjunto de ingredientes quase míticos, associado ao facto de desde sempre a Zenith ser uma manufatura de prestígio (forneceram durante muitos anos a base de um mecanismo para o Rolex Daytona, por exemplo), fez com que o meu interesse na marca começasse, realmente, a ganhar alguma forma.

Zenith El Primero A384 © Paulo Pires / Espiral do Tempo
Zenith El Primero A384 © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Como é hábito, nestes encontros de aficionados, são frequentes as trocas de informação e a inevitável ‘degustação’ dos relógios de cada um dos participantes e tradicionalmente tendo a ser um maior entusiasta dos modelos vintage eminentemente desportivos/tool watches dos anos 60/70. Eis, assim, que um dos participantes neste mesmo encontro, aparece com um magnífico Zenith El Primero, portanto um cronógrafo, pelo qual fiquei logo bastante atraído. Wristshot para aqui, comentário para ali, e fiquei a perceber que se tratava de um modelo da minha época preferida, para além de que apresentava uma fantástica bracelete de aço da Gay Frères, que mais tarde vim a perceber que era a de origem. Na realidade, quando estamos mais vocacionados para os relógios vintage acabamos, muitas vezes, por ir acumulando conhecimento à medida que surge o interesse por alguma peça ou por mera curiosidade motivada, como foi aqui o caso, pelo facto de nos cruzarmos com alguma peça interessante.

Zenith El Primero A384 © Paulo Pires / Espiral do Tempo
Zenith El Primero A384 © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Os entusiastas do vintage sabem que grande parte das vezes estão perante uma oportunidade única e não raras são as ocasiões em que são impelidos a ter de tomar uma decisão na hora, sob risco de poder perder uma determinada peça. Quando surge uma dessas ocasiões, seja pelo facto de estarmos numa qualquer feira internacional ou numa loja especializada, não dispomos do tempo para fazer uma pesquisa aprofundada sobre a peça em causa. Assim, na minha opinião, é importante ir colecionando tais pesquisas sobre peças do seu interesse pessoal e, assim, fundamentar a sua wish list com alguma documentação, valores de mercado etc. Por outro lado, isso pode ser uma tarefa hercúlea e até eventualmente desnecessária, porque estatisticamente a probabilidade de se nos depararmos com o relógio sobre o qual andámos a fazer as pesquisas é extremamente reduzida. Mesmo escolhendo um determinado foco de interesse que, como referido, são os relógios desportivos anos 60/70, poderemos estar a falar de largas centenas de marcas / modelos diferentes.

Acto III – A coincidência

No final de novembro, encontrei-me com um amigo de longa data e de andanças neste mundo dos relógios para lhe entregar um relógio de outro amigo meu. Neste tipo de ambiente de entusiastas dos relógios, é comum ver sempre qual é a peça que se está a usar nesse dia, conta-se uma história referente a esse relógio, geralmente sobre a proveniência, o momento da aquisição, a dificuldade em adquirir aquela peça específica, ou, ainda com maior frequência, aquilo que o apaixonou por comprar aquela peça. Entramos no domínio dos sentidos, da beleza, dos pormenores da qualidade, das recordações. Esse lado da emoção é, sem dúvida, um aspeto importantíssimo do processo de compra.

Zenith El Primero A384 © Paulo Pires / Espiral do Tempo
Zenith El Primero A384 © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Enquanto terminávamos o almoço, entrou alguém que se dirigiu a este meu amigo para lhe entregar um cronógrafo, proveniente de um qualquer negócio ou troca. Mesmo os colecionadores mais afincados acabam, em determinada altura, por optar por fazer uma reestruturação da sua coleção, quer para fazer um upgrade, quer para redirecionar num qualquer sentido a sua coleção. Numa fase inicial, começamos por comprar vários tipos de relógios —  pequenos, grandes, de aviação, de mergulho, diversos tipos de materiais e épocas; as opções iniciais são quase infinitas, e, com o passar do tempo, acabamos por ir apurando o nosso sentido estético, e descobrindo aquilo que nos dá maior prazer.

Depois de o indivíduo se ausentar, obviamente que, sabendo que se tratava de uma peça que seria posteriormente para venda, quis ver de que relógio se tratava. Lá estava ele, um Zenith El Primero A384 com um aspeto totalmente imaculado. O modelo que tinha visto antes e que tinha motivado a minha pesquisa, apesar der ter uma invejável bracelete original Gay Frères, apresentava algum desgaste natural do uso mais intenso, reconhecido nos relógios da época pela transição dos apontamentos azuis do mostrador para uma cor mais acastanhada, que alguns poderão designar como ‘chocolate’ ou ‘tropical’, mas isso seria o mote para um artigo só sobre essa temática.

Zenith El Primero A384 © Paulo Pires / Espiral do Tempo
Zenith El Primero A384 © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Qual é a probabilidade de que um relógio que andei a pesquisar uns 15 dias antes me apareça neste estado??! Muitíssimo baixa, certamente!! No entanto… ali estava ele. Fiz as perguntas da praxe numa qualquer aquisição de um modelo antigo e escusado será dizer que ficou logo agarrado ao meu pulso e seguiu na hora comigo – tinha adquirido um Zenith El Primero A384 que nem sequer tinha formalmente sido posto à venda!

Acto IV – Revival

Recentemente, para comemorar os 50 anos desta edição específica (e também do lendário calibre cronográfico), foi lançado o Zenith El Primero A384 Revival. Trata-se de um cronógrafo muito fiel ao original com a particularidade de, com a mesma base, beneficiado dos conhecimentos e técnicas do século XXI.
Na minha opinião, para o colecionador vintage, uma reedição de um determinado modelo estimula ainda mais o desejo de ter o verdadeiro original, sendo que os relógios vintage inspiram sempre outro tipo de cuidados e precauções, pelo que para os verdadeiros fãs o ideal é ter o Revival para um uso diário e o original para um uso mais parcimonioso.

Acto V – Finale

A título de conclusão, a experiência de ter adquirido este cronógrafo de percurso algo peculiar acaba até por ser mais um ingrediente para o gosto que desenvolvemos por um determinado objeto. Inevitavelmente, por detrás de um relógio há sempre uma (boa) história.

Objetivamente, o meu Zenith El Primero A384 trata-se de um relógio bastante versátil na sua utilização, pois consigo com facilidade usá-lo tanto numa perspetiva mais formal, como num uso mais descontraído como relógio desportivo. Agrada-me a sua forma menos convencional e que nos remete de imediato para os anos 60/70. O mostrador com totalizadores contrastantes, dito ‘Panda’, também nos proporciona uma leitura muito agradável. É de realçar igualmente o ponteiro de segundos do cronógrafo pela sua cor vermelha e caraterístico quadrado, bem com a tradicional data do El Primero entre as 4 e 5 horas.

Zenith El Primero A384 © Paulo Pires / Espiral do Tempo
Zenith El Primero A384 © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Este cronógrafo talvez não reflita neste momento o gosto predominante nomeadamente pela sua ‘reduzida’ dimensão de 37 mm e confronto relógios atuais que contam facilmente com dimensões acima dos 42 mm, mesmo não sendo cronógrafos; no entanto, não passa despercebido quando o uso na presença de outros entusiastas da relojoaria. Na realidade, quando o adquiri não estava a espera que pudesse suscitar um interesse tão generalizado no meu círculo de amigos. No fundo, o facto de o modelo ter sido reeditado com alterações ínfimas revela bem o quão atual o El Primero A384 pode ser, tendo-o tornado ainda mais intemporal!

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