Pais e filhos: o legado da relojoaria

A imagem de abertura deste artigo destaca a edição limitada com que Thierry Stern, presidente da Patek Philippe, homenageou recentemente Philippe Stern. E nesta homenagem vê-se ainda algo mais: vê-se um filho que seguiu as pisadas do pai. Mas no mundo da relojoaria suíça há mais exemplos assim. No Dia do Pai, destacamos meia dúzia de casos.

Thierry Stern é presidente da Patek Philippe, Caroline e Karl-Friderich Sheufele são irmãos e co-presidentes da Chopard, Claudine Gertiser-Herzog é co-CEO da Oris, Daniela Dufour é mestre relojoeira, Edouard Meylan é CEO e fundador da Moser & Cie., Laurent e Nicolas Wiederrecht lideram atualmente a Agenhor, Samuel Hoffman é CEO da Hautlence e Kevin Hoffmann mestre relojoeiro. Todos eles, e cada um à sua maneira, assumem o seu papel no setor da relojoaria suíça e todos eles tiveram o privilégio de crescer com um exemplo à altura: o do pai.

O pai: Philippe Stern
O filho: Thierry Stern

Se há algo que nos fica sempre que somos confrontados com um relógio Patek Philippe, é uma sensação de respeito por tudo o que representa. Depois, uma sensação acrescida de admiração pela defesa bem marcada de passagem de testemunho e de transmissão de paixão: «O meu filho Thierry e eu aprovamos cada projeto e cada novo modelo. E a nossa posição é clara: ou o produto é um Patek Philippe ou não é. Podemos senti-lo. Está no nosso sangue. Estamos imersos neste mundo desde a nossa infância», refere Philippe Stern, anterior presidente da Patek Philippe, pai de Thierry Stern, atual presidente.

Philippe Stern, que esteve aos comandos da Patek Philippe durante vários anos, e Thierry Stern, seu filho e atual presidente da marca, que homenageou o pai com a edição limitada Ref. 1938P-001 | Fotos: cortesia Patek Philippe

Já Thierry Stern, que recentemente homenageou o seu pai com o lançamento de um relógio de caraterísticas únicas, está bem familiarizado com a imersão na marca desde sempre e com a pressão da passagem de testemunho. «O que acontecerá quando o meu pai não estiver cá? Serei capaz de fazer tudo? Há sempre alguma coisa com que me preocupar, e acho que este tipo de pressão não deve ser passada aos nossos filhos. O que eu posso fazer é encorajá-los a trabalhar com empenho na escola. Não tive filhos para que eles fossem liderar a companhia.» Mas, como referia, em 2017, Nicholas Foulkes, no livro Patek Philippe The authorized biography a próxima geração já está a tomar as suas decisões. Thierry Stern explica: «já reparei que um dos meus filhos está interessado no que eu faço e, num dia destes, disse-me: «Vais estar ao meu lado quando eu chegar à Patek Philippe?». 

O pai:Ulrich W. Herzog
A filha: Claudine Gertiser-Herzog

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Claudine Gertiser-Herzog é filha de Ulrich W. Herzog (à direita) e assumiu há uns anos a função de co-CEO com Rolf Studer (à esquerda) | Foto: cortesia Oris

A Oris celebra 120 anos em 2024 e tem uma história com um episódio quase épico: com o declínio da marca devido à incontornável crise do quartzo na década de 1970 e início da década de 1980, Rolf Portmann e Ulrich W. Herzog lideraram uma operação de aquisição pelos quadros da empresa, salvando-a da extinção. Estávamos em 1982. Pouco depois, a então recém-constituída Oris SA decidiu abandonar o quartzo, dedicando-se exclusivamente à produção de relógios mecânicos. A marca tornou-se assim um símbolo do renascimento da relojoaria tradicional helvética. Atualmente, Portmann, já reformado, permanece na empresa enquanto presidente honorário e Ulrich W. Herzog segue o caminho como presidente, agora com o apoio da sua filha Claudine Gertiser-Herzog e de Rolf Studer, ambos CEOs da marca. Juntos, e ao longo dos tempos, têm vindo a desenvolver a Oris com uma visão de independência e sustentabilidade que passa pela criação de relógios mecânicos esteticamente apelativos e para o cidadão do mundo atual e real. Fazer as pessoas felizes é um dos motes da marca.

O pai: Karl Scheufele
Os filhos: Caroline e Karl-Friderich Scheufele

Caroline Scheufele, diretora artística e copresidente da Chopard e Campanha Histórica com Caroline Scheufele em 1980 © Chopard
Caroline Scheufele, diretora artística e copresidente da Chopard e Campanha Histórica com Caroline Scheufele em 1980 | Fotos: cortesia Chopard

Caroline e Karl-Friderich Scheufele são irmãos e copresidentes da Chopard – ambos com carreiras devidamente direcionadas: Caroline é diretora criativa da marca e está ligada às criações de relojoaria feminina e de joalharia; já Karl-Friderich, seu irmão, lidera a vertente de relojoaria, com a nota de ter sido o mentor da Ferdinand Berthoud. Em 1963, o seu pai Karl Scheufele III, dono de uma empresa especializada em relógios-joia e joalharia, adquiriu a Chopard, a marca suíça relojoeira fundada, em 1860, por Louis-Ulysse Chopard. E foi com este novo empreendimento que Caroline e Karl-Friderich Scheufele cresceram e seguiram caminho até aos dias de hoje.

Karl, Karl-Friedrich e Karl-Fritz Scheufele: três gerações ligadas ao Alpine Eagle da Chopard | Foto: cortesia Chopard

Curiosamente, em 2019, um novo lançamento veio piscar o olho já à próxima geração: o Alpine Eagle foi inspirado no St. Moritz, um relógio de design integrado dos anos 70, que foi um dos primeiros produtos idealizados por Karl-Friedrich Scheufele. Na altura, o então jovem de 22 anos teve alguma dificuldade em convencer o pai a lançar um produto tão disruptivo. Mas valeu a pena. O relógio tornou-se um best-seller da marca. Quase 40 anos depois, foi o jovem Karl-Fritz, filho de Karl-Friedrich Scheufele, que teve de convencer o relutante pai a recuperar o design do St.Moritz no Alpine Egale. E contou com o apoio do avô neste processo…

O pai: Philippe Dufour
A filha: Daniela Dufour

Philippe Dufour
O mestre Philippe Dufour | Foto: cortesia Philippe Dufour

Na edição de 2023 do Grand Prix d’Horlogerie de Genève, Daniela Dufour, a jovem relojoeira, que integrou o júri, disse ao pai que tinha o nó da sua gravata mal feito aquando da apresentação do seu prémio. E o seu pai é Philippe Dufour, considerado o mestre dos mestres em relojoaria. Nascida em 2001, Daniela cresceu em Paris com os sonhos habituais de uma menina, mas aos 12 anos, e já a viver na Suíça, assumiu com certezas que queria ser relojoeira. A história em detalhe pode ser lida no site da Europa Star. De facto, Daniela Dufour cresceu a acompanhar a gloriosa carreira de Philippe Dufour, por muitos considerado como o maior relojoeiro vivo.

Documentário Making Time: Philippe e Daniela Dufour
Pai e filha: Philippe e Daniela Dufour | Foto: Making Time

Fundamental para o renascimento ao mais alto nível da alta-relojoaria no período que se sucedeu à crise do quartzo, recuperou antigas complicações e mesmo técnicas de acabamento decorativo, tendo sido mesmo o primeiro a aplicá-las em relógios de pulso. Iniciou a sua atividade em 1978, com o restauro de relógios antigos; depois, idealizou um relógio de bolso com grande sonnerie e fez cinco para a Audemars Piguet, da vizinha localidade de Le Brassus. Entre 1989 e 1992, concebeu o primeiro relógio de pulso com grande e pequena sonnerie e repetidor de minutos — algo que nunca tinha sido feito antes e que os colecionadores atuais valorizam em mais de 1,5 milhões de euros. Todo um percurso exemplar que inspira Daniela Dufour no seu percurso. A jovem relojoeira conquistou o seu diploma de relojoaria por mérito próprio, trabalha com o seu pai desde 2021 e passou a integrar a GPHG Academy, cujos membros selecionam os relógios que competem no Grand Prix d’Horlogerie de Genève e que votam com o júri nos relógios vencedores.

O pai: Jean-Marc Wiederrecht
Os filhos: Laurent e Nicolas Wiederrecht

Tinha 18 anos quando entrou para a escola de relojoaria e acabou por construir uma carreira que fala por si. Com diversos mecanismos da sua autoria a conquistar o galardão no Grand Prix d’Horlogerie, Jean-Marc Wiederrecht já foi distinguido com o Prix Gaia e esteve por trás das especialidades retrógradas da Franck Muller, de complicações poéticas da Van Cleef & Arpels, de criações da MB&F, da Hautlence e da Moser & Cie. nomeadamente os mecanismos do Streamliner Flyback Automatic Chronograph e do Streamliner Perpetual Calendar. Foi também responsável pelo movimento cronográfico AgenGraphe que equipa o Fabergé Visionnaire Chronograph e o Singer Reimagined Track 1. Wiederrecht também desenvolveu a complicação acústica do Slim d’Hermès Heure Impatiente. Tudo feito na Agenhor, nas imediações de Genebra. ‘Agenhor’ resulta da contração de Atelier Genevois d’Horlogerie e produz não apenas módulos ou calibres de complicações inovadoras que fornece a terceiros, mas desenvolve também aspetos precisos de um mecanismo tradicional.

O mestre Jean-Marc Wiederrecht | Foto: Dubai Watch Week

Em 2018, Jean-Marc Wiederrecht celebrou 50 anos de ligação ao mundo dos relógios e atualmente são os filhos Laurent e Nicolas que seguem em frente com esta herança de família. Em 2023, o grupo MELB Lux, proprietário da H. Moser & Cie, da Hautlence e da Precision Engineering, investiu capital na Agenhor. De acordo com a FHS «este investimento minoritário insere-se no processo de integração levado a cabo pela holding familiar. Edouard Meylan, proprietário da MELB Luxe e CEO da H. Moser & Cie, juntou-se assim ao conselho de administração da Agenhor, trazendo a sua visão empreendedora e o seu profundo conhecimento da Alta Relojoaria às competências já adquiridas.» Já agora, Edouard Meylan  é filho de Georges-Henri Meylan, antigo CEO da manufatura Audemars Piguet, e tornou-se num dos mais relevantes opinion makers da indústria na presente década. Mais um nome que tem ‘a relojoaria nas veias’.

Edouard Meylan (owner MELB Luxe & CEO H. Moser & Cie), Laurent & Nicolas Wiederrecht (co-owners Agenhor)
Edouard Meylan, proprietário do MELB Luxe e CEO H. Moser & Cie, com Laurent (ao centro) e Nicolas (à direita) Wiederrecht, filhos de Jean-Marc Wiederrecht e co-proprietários da Agenhor | Foto: DR

O pai: Patrik Hoffmann
Os filhos: Samuel e Kevin Hoffmann

Patrick Hoffman
Patrik Hoffman trabalhou durante 20 anos na Ulysse Nardin, incluindo seis enquanto CEO; saiu da marca em 2017 | Foto: Ulysse Nardin

A mais recente ‘dinastia’ de dirigentes relojoeiros é formada por Patrik e Samuel Hoffman, mas há também que acrescentar Kevin Hoffman. O progenitor Patrik Hoffmann é um veterano da indústria que foi CEO da Ulysse Nardin e posteriormente tornou-se consultor de várias companhias relojoeiras (como a Chronoswiss, marca de que é board member), sendo igualmente vice-presidente do pólo europeu da WatchBox — e foi recentemente nomeado CEO da Favre Leuba, a mais antiga marca suíça em atividade. A sua mulher Susanne Hurni também tem uma longa carreira na relojoaria, incluindo o cargo de vice-presidente de marketing da WatchBox Switzerland.

Samule and Kevin Hoffman
Filhos de Patrik Hoffmann: Samuel é CEO da Hautlence e foi galardoado no GPHG de 2023; Kevin Hoffman trabalha atualmente na Armin Strom | Fotos: Miguel Bueno, cortesia GPHG; cortesia Chronoswiss

O filho de ambos, Samuel Hoffmann, é um dos mais jovens CEOs da atualidade. Samuel assumiu o cargo de CEO da Hautlence, a sister company da H. Moser & Cie no seio do MELB Group, tendo mesmo recebido o ‘Prémio Inovação’ pelo Sphere 1 na última edição do Grand Prix d’Horlogerie de Genève; é o responsável pela nova fase da marca fundada em Neuchâtel há exatamente duas décadas, pelo que o ano em curso assume particular relevância com as comemorações do 20.º aniversário. E depois há Kevin Hoffmann, que seguiu uma vocação mais técnica: após formação na escola de relojoaria de Grenchen, foi destacado relojoeiro na Ochs & Junior e na Chronoswiss — trabalhando atualmente na Armin Strom.

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