Há cinco décadas, estreava Tubarão (Jaws), de Steven Spielberg, um filme que estabeleceu um novo paradigma técnico e narrativo na abordagem do cinema de suspense e prendeu o mundo ao grande ecrã graças a um desafiador gigante dos mares que ameaçava uma pequena cidade costeira. No meio de tudo isto, claro que há também margem para falar de tempo e de relógios.
Em 1975, Steven Spielberg apresentava Jaws (Tubarão), um filme com parto difícil, que derrapou substancialmente em tempo de realização e, por consequência, em orçamento. Porque, diz quem sabe, neste caso tempo era mesmo dinheiro. A verdade é que a realização de Jaws revelou-se uma verdadeira aventura e o projeto chegou mesmo a ser posto em causa, pelas imensas dificuldades associadas, como nos conta o documentário Jaws @ 50: The Definitive Inside Story. Mas depois da tempestade, veio a bonança. O filme acabou por ver finalmente a luz do dia e foi um sucesso pelo modo como levou para as salas de cinema uma nova abordagem de suspense e de terror que fez dele o primeiro blockbuster moderno de Hollywood.

A narrativa em si não é complexa: em pleno verão, a cidade costeira de Amity é subitamente abalada pela presença nas suas praias de um voraz tubarão branco. Martin Brody, o chefe da polícia da zona, tem assim o desafio de voltar a garantir a segurança das águas. O argumento do filme baseou-se no livro homónimo de Peter Benchley, lançado em 1974, mas a sua adaptação ao cinema contou com algumas alterações. O resultado surpreendeu tudo e todos. No grande ecrã, Jaws resultou numa história que parece ser de todos, ao jogar com os nossos maiores medos não só pelo que se vê, mas, acima de tudo, pelo que não se vê e pelo que se ouve.
Podemos dizer que, depois de Jaws ter sido lançado, o mundo do cinema nunca mais foi o mesmo. E a nossa relação com o mar e os tubarões também não. Ainda hoje, cinco décadas depois, o filme continua a ser considerado por muitos como um dos melhores de sempre, pelo modo como os acontecimentos passados na fictícia cidade continuam a despertar os nossos sentidos, os nossos receios e o nosso interesse pelos mais diversos motivos. Ainda assim, podemos acrescentar mais motivos, mas relacionados com a parte que nos toca: tempo e relógios. A propósito da celebração dos 50 anos deste clássico incontornável, destacamos, assim, cinco curiosidades.
1. O tempo
Steven Spielberg optou por realizar o filme com uma rigorosa atenção à cronologia dos eventos, o que significa que o tempo da narrativa parece estar, muitas vezes, sincronizado com o tempo real, num ritmo próximo do documental que acentua o efeito dramático. Na mesma linha, a tensão e ansiedade sentidas são mais despoletadas pelo que não se vê e pelo que se espera. Não apenas pelos episódios fatais que inevitavelmente acontecem. Sabemos como, na nossa perceção da passagem do tempo, os momentos difíceis parecem durar para sempre, pelo que entre o tempo que parece passar devagar até acontecer alguma coisa e o instante que representa o acontecimento em si, temos todo um jogo temporal que entranha nos espectadores até ao momento de grande alívio final.

Depois, temos a banda sonora, assinada por John Williams, que contempla um tema muito específico, pensado para transmitir musicalmente a atividade do insaciável predador. Duas notas apenas e diferenças de ritmo conseguem traduzir a sua aproximação e a iminência de um ataque. Nada disto se faz sem um sentido de tempo. Porque música e tempo estão intrinsecamente ligados.
2. Os relógios
O filme Tubarão surpreende também por tentar ser realista e este fator inclui não apenas as personagens em si (muitas delas eram habitantes reais de Martha’s Vineyard, onde o filme foi rodado) ou o próprio tubarão (com as devidas falhas na sua concretização e a nota de que é preciso encará-lo aos olhos das tecnologias da época), mas também os cenários (entre mar e terra), o experimentado Orca como barco, e, claro, os relógios. Ali, as personagens não usam os relógios no pulso como product placement, mas antes como modelos enquadrados na narrativa e coerentes com os perfis de cada um.
Martin Brody
Martin Brody (Roy Scheider) usa um Hamilton Lyndon CLD, um relógio de 34 mm com uma estética tranquila de dress watch. No fundo, não poderia haver melhor perfil de relógio para o empenhado chefe da polícia que tem uma difícil relação com o mar. Algures no filme, Matt Hopper (Richard Dreyfuss), o oceanógrafo que o acompanha, comenta ironicamente este desconforto de Chief , tendo em conta o lugar onde vive. E o relógio talvez seja a melhor forma de traduzir este aspeto. Afinal, Brody, além de viver numa ilha, enfrenta os seus maiores medos com um relógio feito para enfrentar uma vida em terra e não uma aventura de calibre no meio do oceano, para a qual um relógio robusto de mergulho seria mais indicado. É caso para dizer: «vai precisar de um relógio maior», seguindo a icónica saída do próprio Brody «You’re gonna need a bigger boat» quando se apercebe do tamanho do tubarão que aterroriza Amity.
Mas não é o relógio que vai impedir o que seja. Se, no livro, Brody é frequentemente referenciado a ver as horas, no filme, não o vemos a olhar para o pulso. Ainda assim, o relógio acaba por ter destaque, incluindo no momento em que chief está a aprender a fazer nós de marinheiro ou, na cena final, em que enfrenta o grande tubarão branco. No fundo, é o herói do filme e tanto ele como o relógio (os desenquadrados) acabam por sobreviver, quando tudo poderia indicar o contrário. Só não sabemos se o relógio continuou a funcionar!
Matt Hopper
O relógio que mais dá que falar entre aficionados na relação com o filme é o Alsta Nautoscaph Superautomatic de Matt Hooper, personagem que contribui para compreender melhor o tubarão enquanto animal e para reforçar a tensão vivida, em especial devido à sua conflituosa relação com Quint, o duro pescador que canalizou os seus fantasmas do passado para acabar com a ameaça de Amity. Hopper é jovem e abastado, mas não ostensivo, por outro lado, revela-se prático, destemido e até ‘engenhocas’. Todas estas caraterísticas refletem-se no relógio de pulso que usa e que pode ser visto também em momentos chave, como no jantar em casa de Brody ou, por cima do fato de mergulho, no intenso momento em que mergulha, protegido pelo gaiola anti-tubarões.
O seu relógio é um diver de formato cushion menos reconhecível, face a modelos mais famosos. Com luneta rotativa e uma estética cool também graças à bracelete com aberturas circulares, tem o seu quê de personalidade no que ao design e sentido prático diz respeito, pelo que encaixa bem na personalidade racional e irreverente de Hooper, ao mesmo tempo que se adapta ao mundo marinho. É um peixe na água, como o jovem biólogo. Depois de muitas especulações entre aficionados ao longo dos anos, este relógio de pulso foi identificado em 2010 por Gary e Christian Stock que, segundo a Alsta, confirmaram o modelo «através de fotos de filmes forenses, filmagens caseiras de Martha’s Vineyard e um único achado de sorte no eBay — o modelo exato, com a reveladora pulseira Speidel Twist-O-Flex».
3. As edições limitadas

As cinco décadas do filme Jaws estão a ser celebradas de diversas formas e nas mais diversas áreas, incluindo a relojoaria. A própria Alsta que, tem vindo a ancorar muito a sua comunicação na relação com filme desde que renasceu em 2014, indica no site que este ano iria apresentar uma edição especial fiel ao relógio original, embora já tenha lançado outras evocativas em anos anteriores. Mas ainda não estamos a par se o relógio já foi apresentado. Por seu lado, a Seiko lançou para o mercado japonês o Seiko Prospex JAWS 50th Anniversary Limited Edition, uma edição limitada a 5000 exemplares com referências ao imaginário de Jaws e que inclui ainda um estojo especial. Além disso, é possível encontrar pela internet fora diversos relógios alusivos ao tema, mas não necessariamente ligados ao meio século, deste clássico do cinema.
4. A Rolex

Se muitos dizem que um Submariner poderia ser um bom relógio para o enigmático Quint, que no filme não usa relógio (por aqui, imaginamos um Submariner bem marcado pelo tempo e pela vida, e até sem luneta, como acontece com o GMT Master de Colonel Kurtz em Apocalipse Now), a verdade é que a Rolex acaba também por ter algo para contar na relação com estes 50 anos. Um dos três animatrónicos mecânicos originais usados nas filmagens – a produção deu o nome de ‘Bruce’ ao tubarão – foi restaurado e, desde 2021, pode ser visto no Academy Museum of Motion Pictures, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Este espaço museológico dedicado à história do cinema tem precisamente a Rolex como parceiro fundador e, a propósito dos 50 anos, está mesmo a organizar uma exposição de larga escala que «revisita Jaws cena por cena através de objetos, revelações de bastidores e momentos interativos», como se refere no site do museu. Tendo como base a coleção de Steven Spielberg, o arquivo de Amblin Hearth, e as coleções e arquivos da NBCUniversal, entre outros, «Jaws: The Exhibition» vai decorrer entre 14 de setembro de 2025 e 26 de julho de 2026.

Por outro lado, há que referir ainda James Cameron, Testimonee Rolex de longa data, que acompanhou de perto os bastidores do filme e chegou mesmo a visitar o local das filmagens e a acompanhar os momentos complicados pelos quais Steven Spielberg passou durante a sua realização. Profundo conhecedor da relação entre cinema e tecnologia subaquática, o realizador tem consciência das dificuldades de levar a cabo uma produção deste género, ou não tivesse ele realizado Titanic (1997) e O Abismo (1989), além de ter descido a quase 11.000 metros de profundidade, na Fossa das Marianas, com um submersível, numa expedição apoiada pela Rolex. Estávamos em 2012 e a marca da coroa lançou mesmo uma edição especial do Sea-Dweller Deep Sea.


5. O tubarão
Na época em que foram lançados, o livro e o filme Jaws acabaram por contribuir, em certa medida, para uma conotação negativa do tubarão ao oferecer um retrato do animal enquanto predador de pessoas que precisava de ser abatido a qualquer custo. Nesse verão, as praias não terão sido as mesmas e, provavelmente, um pouco por todo o lado, alguns terão pensado duas vezes antes de dar um mergulho. Porém, o impacto das duas obras também lançou a semente do fascínio pelos mistérios e comportamentos da espécie. Com o tempo e o devido afastamento, o mundo foi começando a encarar o ‘tubarão’ com outros olhos e as últimas décadas têm vindo a redefinir o seu papel na cultura popular, cada vez mais associado à urgência da sua preservação.

A indústria relojoeira também faz a sua parte neste campo com integração desta narrativa em edições especiais que têm uma componente de sensibilização ambiental. Atualmente, são diversos os relógios inspirados em tubarões, lançados no contexto de iniciativas de conservação marinha e que também incluem a colaboração com organizações que atuam na proteção dos ecossistemas oceânicos. Marcas como a Oris, a Ulysse Nardin ou a Delma são alguns dos exemplos que têm apresentado edições limitadas que não só prestam tributo ao tubarão, como também contribuem para a sua preservação.