Previsões e Antevisões

Depois de explorarmos as tendências esperadas para 2026, aqui ficam algumas considerações sobre a evolução da indústria relojoeira neste novo ano.

Já aqui traçámos as tendências de produto que prometem estar em voga no ano de 2026. Aqui ficam alguns considerandos complementares.

Aniversários

Numa indústria secular e cada vez mais marcas no mercado, é natural que a cada ano haja a oportunidade de comemorar aniversários significantes — tanto de marcas como de relógios. O mais relevante é o centenário do Rolex Oyster. A própria Rolex e a Tudor fazem 100 anos, embora a Rolex sempre faça constar que não celebra explicitamente aniversários. A Patek Philippe comemora 50 anos do Nautilus (há uma década lançou uma celebrada edição de aniversário) e 25 anos do Museu Patek Philippe.

Patek Philippe Nautilus in white gold and blue sunburst dial - Ref. 5811/1G-001
O Nautilus cumpre meio século de vida em 2026 | Foto: Patek Philippe

A Richard Mille também cumpre um quarto de século de vida. E convém não esquecer que teremos o 225º aniversário da patente do turbilhão de Abraham-Louis Breguet; a Breguet parece ter despertado sob a liderança de Gregory Kissling e ganhou o Grand Prix d’Horlogerie de Genève de 2025, pelo que muito possivelmente celebrará de maneira condizente a invenção do turbilhão pelo relojoeiro que lhe deu nome.

Preços a subir

A Rolex é a bitola, anunciando sempre novos preços no arranque de cada ano. E, sem grande surpresa, os preços de 2026 sofreram uma subida evidente — sobretudo o preço dos modelos em ouro, porque o mais famoso dos metais preciosos está mais caro do que nunca… embora o incremento entre 2024 e 2025 tenha sido ainda maior, já então tendo em conta a grande valorização do ouro.

O 1908 ganhou uma nova personalidade com a nova bracelete Settimo | Foto: Rolex
O 1908 da Rolex com bracelete Settimo de malha em ouro | Foto: Rolex

Na atualização dos preços de cada modelo, a subida é sempre maior nas respetivas versões em aço/ouro (Rolesor) e ouro (Everose, ouro amarelo e ouro branco), chegando aos 5,9%; a título de exemplo, 5,7% no 1908 com bracelete Settimo da ilustração. Depois há o caso especial dos Estados Unidos, porque há que ter em conta as tarifas em vigor — e, lá, os valores aumentaram entre 9% (modelos de aço) e 15% (modelos de ouro) relativamente aos números que vigoravam no início de 2025.

Feiras

Já é um dado adquirido que, em 2026, a Audemars Piguet ingressará pela primeira vez no Watches & Wonders (ou regressará, tendo em conta que marcou presença no antecessor Salon International de l’Haute Horlogerie até 2019) juntamente com 10 outras marcas; o enorme e multimilionário pavilhão apresentado pela manufatura de Le Brassus na Dubai Watch Week foi um bom prenúncio. Haverá também ‘promoções’ de marcas que ganham um posicionamento mais relevante no salão — por exemplo, a H. Moser & Cie passa do Carré des Horlogers para o corredor principal, a Chronoswiss passa do espaço das pequenas marcas para o Carré des Horlogers.

Corredor central do Watches & Wonders 2025 na Palexpo | Foto: Watches & Wonders
Corredor central do Watches and Wonders na Palexpo | Foto: Watches and Wonders

Supostamente, após a conturbada 10.ª edição de 2024, deveria haver este ano mais um leilão Only Watch… mas não há qualquer informação oficial e Luc Pettavino ainda não respondeu ao nosso pedido de esclarecimento. Quem nos esclareceu sobre periodicidade foi Hind Seddiqi, diretora da bienal Dubai Watch Week que tanta gente pede que passe a realizar-se anualmente: isso não acontecerá seguramente em 2026, mas a hipótese de se passar a realizar todos os anos está a ser seriamente estudada; neste ano intercalar, irão organizar o itinerante Horology Forum num local ainda incerto (depois de Londres, Nova Iorque e Hong Kong, talvez Paris?).

O exemplar único Chronomètre FB 2T da Ferdinand Berthoud dedicado à Milano Watch Week | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo
Com o Duomo como cenário de fundo: o Chronomètre FB 2T da Ferdinand Berthoud na Milano Watch Week de 2023 | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Outros certames de destaque: LVMH Week para a semana em Milão, VO’Vintage e VO’Clock em paralelo com as edições de inverno e verão da Vicenzaoro, British Watchmakers’ Day (início de março), Geneva Watch Days (início de setembro) e a bienal Milano Watch Week (início de outubro).

Valorização de independentes

O cenário relojoeiro está muito dominado pelos grandes conglomerados de luxo — os já tradicionais Richemont, Swatch Group e LVMH, todos eles donos de marcas sobejamente reconhecidas. Mas a enorme valorização de marcas de alta-relojoaria associadas a mestres como a F.P. Journe de François-Paul Journe, a Akrivia de Rexhep Rexhepi ou a Voutilainen de Kari Voutilainen revela bem a apetência cada vez maior dos colecionadores experimentados e dos novos aficionados esclarecidos pelos independentes.

A F.P. Journe tem registado uma extraordinária valorização na última década | Foto: F.P. Journe

O mesmo é válido para as micromarcas, também elas independentes por definição. Nos dois extremos da escala de preço, os independentes vão continuar a ganhar mercado — embora no topo seja cada vez mais difícil de conseguir um relógio… já há listas de espera de listas de espera!

Aquisições

O ano de 2025 acabou com a especulação de que o grupo Richemont poderia vender a Baume & Mercier à atual estrutura diretiva (ou seja, um management buy-out) e a discreta notícia de que a Chanel adquiriu uma participação minoritária na Kross Studio, alargando o seu notável portefólio na relojoaria fina que inclui percentagens na F.P. Journe, na MB&F, na Romain Gauthier e na Bell & Ross, a par da impressionante unidade fabril que detém em La Chaux-de-Fonds.

Irá a De Bethune mudar de mãos em 2026? | Foto: Lukasz Doskocz/ch24

Em 2026 haverá seguramente mais participações e acusações — afinal de contas, é a lei do mercado. E a nova estrutura The Honourable Merchants de François-Henry Bennahmias, ex-CEO da Audemars Piguet, está compradora de marcas; falou-se na De Bethune, atualmente detida a 83,5% pela The 1916 Company, mas os boatos foram negados… para já.

Impulsionadores de mercado

O mercado da relojoaria de prestígio (ou relojoaria de luxo) é sobretudo impulsionado pelo aumento da riqueza global, resultando numa procura crescente por requintados status symbols e peças de coleção que sirvam o interesse aspiracional de jovens endinheirados. Um dos vetores importantes é a forma como os relógios de luxo são vistos como investimento, algo que tem impulsionado o crescimento do mercado de relógios usados ​​certificados (Certified Pre-Owned).

O programa Certified Pre-Owned abrange todos os relógios Rolex usados, desde que tenham pelo menos três anos.
O programa Certified Pre-Owned abrange todos os relógios Rolex usados, desde que tenham pelo menos três anos | Fotos: Rolex

Cada vez mais valorizadas serão as peças que incluem demonstrações de artesanato decorativo (os chamados métiers d’art) que diferenciem os relógios de luxo dos produtos de massas.

Oportunidade

Haverá tendência para a expansão do mercado de produtos usados ou seminovos certificados (CPO), com cada vez mais marcas a assumir a responsabilidade pelos seus relógios no mercado secundário; assim, controlam um canal de distribuição próprio, captam valor no mercado secundário, fazem a gestão do preço e stock enquanto atraem uma nova clientela sensível ao apelo do luxo mas que ainda não está preparada para pagar preços de novos…

Inteligência Artificial

Se a influência digital das redes sociais foi ganhando importância desde o final da primeira década do presente milénio, a atualidade é mais dominada pela eclosão da Inteligência Artificial. As marcas que melhor dominarem essa ferramenta em benefício próprio poderão dar um salto significativo em 2026. Como a criação de personalidades ‘artificiais’ como embaixadores e a personalização de cada exemplar baseada em inteligência artificial. Existe um forte potencial para a inovação digital melhorar a experiência do cliente; as medidas garantem autenticidade e ‘rastreabilidade’ dos artigos.

Desafios

O maior dos desafios da indústria é o aumento da contrafação de relógios de marcas de prestígio — tanto em qualidade como em número, exigindo das direções mais investimentos em tecnologias de autenticação; a implementação de blockchain para Passaportes Digitais de Produto (DPPs) que asseguram autenticidade e a tal rastreabilidade é um bom exemplo. E depois há a conjuntura global, que parece cada vez mais difícil: após a rábula do sobre e desce das taxas americanas em 2025, o cenário político de 2026 está com tendência para se agravar e isso resulta em desconfiança do mercado.

Novas ‘embaixadas’

As boutiques são uma espécie de embaixadas, nas quais o aficionado tem contacto direto com a cultura da marca em questão no local mais adequado.

portas da boutique de relógios da A. Lange & Soehne na Avenida da Liberdade, em Lisboa | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo
Em preparação: a nova boutique da A. Lange & Söhne, na Avenida da Liberdade | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

E se 2025 assistiu à inauguração/renovação de boutiques relojoeiras na Avenida da Liberdade (que cada vez mais parece a Rue du Rhône, em Genebra), como a estreia da Breitling e a atualização do espaço da Jaeger-LeCoultre, já se sabe que em 2026 haverá — pelo menos — uma nova boutique da A. Lange & Söhne, provavelmente inaugurada entre o final de março e meados de abril.

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