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Ser quadrado é fixe

EdT55 — ‘Quadrado’ (adjetivo popular figurado): pouco inteligente, sem agilidade de pensamento; limitado, pouco recetivo a inovações; obtuso; convencional, retrógrado; tradicionalista. É o que diz o dicionário. Mas, ironicamente, as pessoas que conheço que apreciam relógios quadrados — e, por extensão, relógios de forma — são exatamente o oposto dessa definição pejorativa. Não tinha Steve McQueen, que usava o Monaco, o cognome de ‘King of Cool’?

Crónica originalmente publicada na versão impressa da Espiral do Tempo 55 e recuperada/adaptada para as comemorações do 50º aniversário do TAG Heuer Monaco

Entre comentários para o Eurosport e numa das interrupções provocadas pela chuva na recente edição de Roland Garros, pus-me a ver o resumo do Grande Prémio do Mónaco — e, ao olhar para a reedição do Monaco da TAG Heuer que tinha no pulso, questionei-me sobre o que fará alguém escolher um relógio chamado ‘de forma’ em detrimento de um relógio redondo.

O Monaco Calibre 12 da TAG Heuer em Roland Garros © Miguel Seabra / Espiral do Tempo
O Monaco Calibre 12 da TAG Heuer em Roland Garros © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Por relógios ‘de forma’ definem-se todos aqueles que apresentam uma geometria não redonda — ou seja, os relógios em forma de barril (se seguirmos a tradução literal do francês tonneau, ou em formato almofada, segundo a expressão anglicista cushion); os relógios quadrados; os relógios retangulares; os relógios ovais; e os relógios assimétricos. Mas os modelos redondos ou os que têm um mostrador circular sobre uma base mais ou menos geométrica continuam a apresentar um domínio quase esmagador no mercado, com honrosas exceções de exemplares icónicos com um design mais retilíneo que se tornaram incontornáveis na história da relojoaria de pulso. Como o Reverso da Jaeger‑LeCoultre, o Santos da Cartier e o Monaco da TAG Heuer. Por enquanto, o Apple Watch ainda não integra o lote… e, não sendo mecânico, também não merece pertencer à mesma categoria.

A variante quadrada do Reverso da Jaeger-LeCoultre: o Reverso Squadra Home Time em Wimbledon © Miguel Seabra / Espiral do Tempo
A variante quadrada do Reverso em Wimbledon: o Reverso Squadra Home Time entretanto saiu do catálogo da Jaeger-LeCoultre © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Percebe-se a predominância dos relógios redondos ou de mostrador circular: a noção de circularidade do tempo existe desde os primórdios da humanidade, com o Sol a alternar com a Lua, os dias a sucederem-se às noites e as estações a revezarem-se perpetuamente, fomentando o mito do eterno retorno e a alegoria da serpente que engole a própria cauda. Tornou-se natural que, a partir do momento em que surgiram os primeiros relógios, a melhor e mais intuitiva maneira de apresentar o tempo fosse com o recurso a ponteiros em movimento cíclico a partir de um eixo. Essa noção permanece e, para a maioria, acaba por ser instintiva a opção por um modelo redondo enquanto primeiro relógio.

A Bell & Ross tem multiplicado as variantes da sua caixa quadrada e este BR-X2 Tourbillon Micro-Rotor é um dos modelos mais relevantes na história da marca de sempre © Miguel Seabra / Espiral do Tempo
A Bell & Ross tem multiplicado as variantes da sua caixa quadrada e este BR-X2 Tourbillon Micro-Rotor é um dos modelos mais relevantes na história da marca de sempre © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Quadrado: da técnica ao intangível

Para os fabricantes, a profusão de relógios redondos vai além do aspeto intuitivo e do fator comercial. Tal como sucede com os mostradores e as caixas, também os calibres redondos são os mais naturais — o círculo é o formato natural de qualquer mecanismo que permite ao tempo correr ciclicamente e os mecanismos redondos favorecem a inclusão, no espaço mais reduzido possível, de complicações suplementares.

Apesar de o mostrador ser redondo, é o lado quadrilátero e geométrico que mais se impõe no Octo Finissimo da Bvlgari © Miguel Seabra / Espiral do Tempo
Apesar de o mostrador ser redondo, é o lado geométrico (e globalmente quadrilátero) que mais se impõe no Octo Finissimo da Bvlgari © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

E se é natural transportar o élan circular do movimento para o mostrador e também para a caixa, as exigências de estanqueidade também tornaram o formato redondo mais exequível. A dilatação dos materiais, que se efetua do centro para a periferia, é mais fácil de gerir utilizando peças trabalhadas sobre uma base circular; as juntas em anel também são mais fáceis de produzir e os vidros redondos mais fáceis de acoplar à caixa. Resumidamente: por motivos simbólicos e técnicos, as caixas circulares tornaram-se a escolha mais evidente — não só pela sua legibilidade, mas também por serem mais resistentes e estanques.

Relógio quadrado: TAG Heuer Monaco
TAG Heuer Monaco, primeira reedição de 1998. © Espiral do Tempo / Miguel Seabra

As melhores manufaturas relojoeiras sempre estiveram mais livres para ultrapassar constrangimentos devido à sua mestria técnica e capacidade de apostar noutros formatos, mantendo caixas relativamente invioláveis. Quando foi lançado, em 1969, o Monaco foi o primeiro cronógrafo quadrado dotado de um mínimo aceitável de estanqueidade. E foi imediatamente encarado como sendo um relógio vanguardista — mesmo para o experimentalismo cromático e geométrico da época, era um relógio ‘muito à frente’. E com muito carisma.

O revolucionário Calibre 11/Chronomatic, a atual reedição do Monaco original de 1969 e Jack Heuer
O revolucionário Calibre 11/Chronomatic, a atual reedição do Monaco original de 1969 com coroa à esquerda (designada Monaco Calibre 11) e Jack Heuer © TAG Heuer

Jack Heuer batizou-o em honra do Grande Prémio do Mónaco e de todo o glamour associado ao Principado e à Riviera Francesa, com o mar da Côte d’Azur refletido num mostrador azul tornado racing com totalizadores brancos contrastantes e detalhes a vermelho. Foi também o relógio escolhido por Steve McQueen na construção da sua personagem no filme Le Mans (1971), baseada no piloto suíço Jo Siffert (que até ficou mais associado a outro relógio da mesma marca: o Autavia).

Steve McQueen no filme Le Mans © TAG Heuer
Um ídolo nada ‘quadradão’: Steve McQueen e o seu Monaco no filme Le Mans © TAG Heuer

Steve McQueen tinha o cognome ‘King of Cool’ porque ele era, de facto, cool. E o Monaco também é um relógio cool, independentemente de ter sido celebrizado pelo lendário ator americano. Pelas cores, pelo formato, por ser inconfundível. Mesmo não tendo sido um sucesso comercial na altura: tanto disseram a Jack Heuer que era demasiado angular que, em 1975, foi forçado a criar o Silverstone… a partir de um protótipo do Monaco com os ângulos arredondados.

O Silverstone nasceu da vontade de... arredondar a caixa demasiado angular do Monaco © Miguel Seabra / Espiral do Tempo
O Silverstone nasceu da vontade de… arredondar a caixa demasiado angular do Monaco © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

O Silverstone foi recuperado em 2010 numa edição limitada que então se destinou a comemorar os 160 anos da TAG Heuer, mas não foi na altura um grande sucesso comercial porque surgiu alguns anos antes do regresso da moda retro dos anos 70 à relojoaria. Por alturas de 2014, a SevenFriday lançou-se tendo por base uma caixa quadrada de cantos arredondados mas bem maior do que a do Silverstone.

A edição limitada Big Block da SevenFriday: um modelo inspirado nos Muscle Cars americanos em ambiente tenístico © Miguel Seabra / Espiral do Tempo
A edição limitada Big Block da SevenFriday: um modelo inspirado nos Muscle Cars americanos em ambiente tenístico © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

O curioso é que, se o Monaco se revelou na altura disruptivo e brilhou no pulso do ‘King of Cool’, a palavra inglesa square — que tem a devida correspondência em português, se bem que o epíteto ‘quadrado’ já não seja corrente — era e ainda continua a ser utilizada para definir pessoas conformistas, acomodadas, até mesmo tacanhas e resistentes à mudança. E até há um famoso tema pop/rock à volta disso! A seguir a ‘Power of Love’, o segundo maior êxito de Huey Lewis foi o tema ‘Hip to be Square’, de 1986 (e regressado à fama através de uma sequência macabra no filme ‘American Psycho’, de 2000), em que o protagonista da canção revela que tentou lutar contra o sistema, mas que, afinal, também é fixe ser quadradão:

I used to be a renegade, I used to fool around;

but I couldn’t take the punishment and had to settle down;

now I’m playing it real straight and yes, I cut my hair;

you might think I’m crazy, but I don’t even care;

because I can tell what’s going on:

it’s hip to be square.

Formato quadrilátero mas de construção suavizada: o AM2 Automatic Grall da jovem marca francesa March LA.B © Miguel Seabra / Espiral do Tempo
Formato quadrilátero mas de arquitetura suavizada: o AM2 Automatic Grall da jovem marca francesa March LA.B © Miguel Seabra / Espiral do Tempo

Na relojoaria, é o contrário. Os relógios de forma são uma reação à tirania circular e uma expressão de inconformismo — e não é raro que designers, arquitetos e artistas prefiram modelos que não sejam redondos. É fixe ter um relógio quadrado. Consequentemente, quem tem um relógio quadrado é fixe. Pelo menos quero acreditar nisso, pelo que apostei a triplicar: tenho a primeira reedição do Monaco (preta, de 1998), a tradicional reedição Steve McQueen (azul, na variante Calibre 12 de coroa à direita) e ainda um Jaeger-LeCoultre Reverso Squadra Hometime… para além dos arredondados quadriláteros SevenFriday (algumas edições limitadas, incluindo o Big Block) e AM2 Automatic Grall da March LA.B. Dos mais recentes lançamentos, os Octo Finissimo da Bvlgari e os BR-X1 Chronograph da Bell & Ross (especialmente o Hyperstellar) são claramente cool e também ficariam muito bem na minha coleção… ET_simb

Bell & Ross BR-X1 Skeleton Chronograph Hyperstellar
A sofisticada construção modular destaca-se no BR-X1 Skeleton Chronograph Hyperstellar da Bell & Ross © Espiral do Tempo / Miguel Seabra

Acompanhem o quinquagésimo aniversário do famoso cronógrafo quadrilátero através dos hashtags #MonacoMonday #Monaco50 #HipToBeSquare #Chronomatic50 e #Calibre11!

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