O segredo por trás do 25 da A. Lange & Söhne

A manufatura A. Lange & Söhne apresenta sempre o dia 25 nos seus relógios com data, embora a data contemporânea mais importante na história da marca germânica seja um dia 24. No entanto, há uma explicação que remonta a 1994 e que associa ambas as datas. E é precisamente um dia depois da apresentação da segunda geração da linha Zeitwerk (simbolicamente apresentada a 24 de outubro), que revelamos o porquê…

A admirável coleção contemporânea da A. Lange & Söhne arrancou oficialmente a 24 de outubro de 1994 em Dresden, quando Walter Lange — na companhia de Günter Blümlein e Hartmut Knothe — desvelou os primeiros modelos Lange da nova era, após quase meio século de uma hibernação forçada. A emblemática fotografia do trio entre o quarteto de relógios ficou para a história da relojoaria moderna e simboliza, também, o reflorescer da relojoaria mecânica após duas décadas de domínio do quartzo. Numa perspetiva lusa, pode dizer-se que o dia 24 de outubro foi o ’25 de abril’ da A. Lange & Söhne… até porque a data que invariavelmente surge nos mostradores da marca germânica é mesmo o dia 25. Há uma explicação para isso, mas primeiro importa fazer uma viagem no tempo.

Na primeira conferência de imprensa da A. Lange & Söhne após a ressurreição da marca, Günter Blümlein, Walter Lange e Hartmut Knothe posam com os primeiros quatro modelos da nova geração: o Lange 1, o Arkade, o Saxonia e o Tourbillon ‘Pour le Mérite | © A. Lange & Söhne

Ao anunciar então que queria «voltar a fazer os melhores relógios do mundo», Walter Lange foi interpretado com um misto de admiração e incredulidade. Ao seu lado, as imagens dos primeiros quatro modelos A. Lange & Söhne da nova geração exalavam uma tal classe que deixavam entrever algo de verdadeiramente especial — tão especial que, passados escassos anos, já havia quem admitisse que a profecia se havia tornado realidade. Hoje em dia, a manufatura saxónica é uma das marcas mais respeitadas do universo relojoeiro e muitos outros modelos de exceção se sucederam ao quarteto inaugural formado pelo Lange 1 (que se tornou no ex-libris da marca), pelo Saxonia, pelo Arkade e pelo complexo Tourbillon ‘Pour le Mérite’.

A. Lange & Söhne Lange 1 Perpetual
Lange 1 Perpetual | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

A crise pós-Primeira Guerra Mundial, as feridas dos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial, as cicatrizes da expropriação política na Alemanha de Leste, a redenção após a queda do Muro de Berlim, o milagre do inverosímil regresso e até as cheias devastadoras do início do presente milénio dão um caráter quase épico aos relógios da marca. De certo modo filha das consequências políticas da glasnost e da perestroika, a A. Lange & Söhne pós-Muro de Berlim surgiu personificada nos quatro modelos inaugurais: o Lange 1, o Arkade, o Saxónia e o complicado Tourbillon Pour le Mérite passaram com distinção no escrutínio da primeira apresentação aos clientes e à crítica especializada, no referido dia 24 de Outubro de 1994. Não bastava que os relógios fossem esteticamente apelativos ou concebidos exclusivamente em metais preciosos. Denotavam classe pura e eram sobretudo diferentes sem destoar da tradição de uma marca com pedigree imperial: mecanismo tradicional em prata alemã com platina a três quartos, decoração única com gravação do galo do balanço e chatôns de ouro; a data sobredimensionada numa janela dupla inspirada num relógio da Ópera Semper de Dresden representou uma tremenda originalidade; o mostrador descentrado do emblemático Lange 1 e o princípio de transmissão (com fusée à chaîne) utilizado no Tourbillon ‘Pour le Mérite’ deixaram a indústria boquiaberta.

A. Lange & Söhne Odysseus
Odysseus | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

E qual o segredo por trás do 25? Simples, se for tido em conta que a apresentação surgiu nos tempos pré-Internet. Aconteceu no dia 24 de outubro de 1994, mas as fotografias do Lange 1, do Saxonia e do Arkade entregues à imprensa tinham o dia 25 na janela sobredimensionada para que os relógios surgissem com a data certa nos jornais publicados do dia seguinte!

Pormenor da janela da data do A. Lange & Söhne Saxonia
Saxonia | © Paulo Pires / Espiral do Tempo

Apesar de não se tratar de um modelo com a tradicional janela sobredimensionada para a data, não foi à toa que a A. Lange & Söhne apresentou os novos Zeitwerk no dia 24 de outubro de 2022; o dia 24 é e será sempre um dia simbólico para a marca. Se tivesse data, surgiria certamente nas fotografias com o dia 25 em destaque…

Novos modelos Zeitwerk em ouro rosa e platina
Novos modelos Zeitwerk em ouro rosa e platina | © A. Lange & Söhne para Espiral do Tempo

O Zeitwerk é uma especialidade da A. Lange & Söhne e um modelo único no contexto da relojoaria mecânica. Estreou-se em 2009 como o primeiro relógio mecânico capaz de indicar as horas e os minutos com precisão através de discos saltantes. Os três discos necessários (um para as horas, dois para os minutos) requeriam um consumo de energia tremendo, apenas possível graças a um tambor de corda patenteado com uma mola especialmente comprida e um mecanismo patenteado de força constante. A segunda geração do Zeitwerk apresenta um novo calibre com o dobro da reserva de corda graças a dois tambores, um botão suplementar para ajuste rápido da hora, um submostrador maior para os segundos e uma pitada de vermelho na escala da reserva de corda. Para já, está disponível em combinações que não existiam na geração anterior: ouro rosa com mostrador preto e platina com mostrador prateado.

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