TAG Heuer: um livro especial de corrida

Quando, no início da década de 60, Jack Heuer ouviu falar da Carrera Panamericana, não imaginaria que daria início a uma corrida que prossegue vertiginosa após seis décadas. E que está resumida num livro que deve pertencer à biblioteca de qualquer aficionado.

É uma Bíblia para qualquer aficionado dos cronógrafos em geral e da marca em particular: o livro TAG Heuer: The Race Never Stops ilustra fielmente a história de um dos maiores ícones da relojoaria de pulso e mostra mais de 500 referências do Carrera ao longo de seis décadas — e trata-se mesmo de uma ‘Bíblia’ porque, numa analogia que pode ser feita ao livro sagrado propriamente dito, também contempla um período de ‘Velho Testamento’ (de 1963 até finais da década de 70, sob a designação Heuer) e de ‘Novo Testamento’ (de 1996 até aos dias de hoje, já enquanto TAG Heuer)!

TAG Heuer Carrera Chronograph Glassbox
Uma das mais recentes referências: o Carrera Chronograph Glassbox | Foto: TAG Heuer

Sob a batuta do designer gráfico e ilustrador Björn Altman, a obra revela um total exato de 538 variantes do Carrera particularmente detalhadas. Acaba por ser uma corrida (Carrera significa precisamente isso em castelhano…) através do tempo que também representa uma importante viagem de estilo que representa as tendências das várias décadas de vida de tão importante modelo, entretanto tornado no best-seller da TAG Heuer — como o foi também entre a década de 60 e 70.

A saga do Carrera: uma enciclopédia com 538 referências de uma lenda | Foto: TAG Heuer

O TAG Heuer: The Race Never Stops está dividido em seis capítulos e, para além de imagens e ilustrações que valem mais do que mil palavras, também inclui narrativas que ajudam a compreender porque é que o Carrera se tornou num relógio intemporal. Entre os contribuidores estão o próprio diretor do museu e património da TAG Heuer, Nicholas Biebuyck, o historiador Nick Foulkes, o designer Marc Newson, o cronista Jason Barlow, o fundador do site OnTheDash e heuerista Jeff Stein, e os jornalistas especializados Simon de Burton, Robin Swithinbank e Judikael Hirel.

Seis décadas de modelos Carrera escrutinadas… e a história continua | Foto: TAG Heuer

A publicação tem capas duras e inclui 350 páginas que representam a ‘corrida’ do Carrera, que remonta aos primeiros tempos de Jack Heuer à frente da companhia relojoeira familiar. Jack Heuer sabia então que a legibilidade seria determinante para os cronógrafos da nova geração e optou por um mostrador simples, mas acompanhado de uma escala até ao quinto de segundo em relevo e um vidro bombeado para proporcionar um efeito tridimensional. O resultado: um relógio belo e depurado, embora sem nome de batismo à altura. A nomenclatura foi encontrada por acaso nos Estados Unidos, numa animada conversa com um dos dois irmãos Rodriguez, famosos pilotos mexicanos, aquando das ’12 Horas de Sebring’. Pedro Rodriguez recordou uma lendária corrida que atravessava o México nos anos 50 e que foi cancelada devido à extrema perigosidade e vários acidentes fatais: a ‘Carrera Panamericana Mexico’.

Esquerda: Cartaz publicitário da Carrera Panamericana. Direita: Ayrton Senna
Cartaz da Carrera Panamericana e Ayrton Senna, lendário embaixador da marca | Fotos cedidas por TAG Heuer

A lenda deu origem a outro mito, porque Jack Heuer regressou à Suíça com um apelido carismático.  Após os primeiros modelos desvelados em 1963 e a grande apresentação na feira de Basileia de 1964, ao longo da década de 60 foram surgindo interessantes variações do Carrera com mecanismos cronográficos de corda manual. Até que, numa empreitada que juntou a Heuer a outras companhias, surgiu o primeiro movimento cronográfico automático em 1969 (o Calibre 11/Chronomatic) que passou a equipar o Carrera e mais dois cronógrafos: o Monaco e o Autavia. Uma troika que rapidamente passaria a simbolizar o apogeu dos cronógrafos de pulso, sendo o Carrera adotado por intrépidos campeões dos tempos dourados da Fórmula 1 como Nikki Lauda, Clay Regazzoni, Ronnie Peterson (com Cristiano Ronaldo a usar uma sua versão comemorativa muito especial!), John Watson ou Gilles Villeneuve.

Jack Heuer com Nikki Lauda
Jack Heuer com os pilotos Ferrari na Fórmula 1, Nikki Lauda e Clay Regazzoni | Foto cedida por TAG Heuer

Até que a tecnologia do quartzo veio abalar tudo e determinar não só a reestruturação da empresa como a extinção desses emblemáticos cronógrafos; na sequência da crise que abalou profundamente a indústria relojoeira suíça no final dos anos 70, a Heuer foi comprada pela TAG (Techniques d’ Avant-Garde) e tornou-se TAG Heuer em 1985 — mantendo a ligação ao desporto motorizado graças à parceria com outra escuderia de peso na Fórmula 1 como a McLaren ou afamados pilotos como o tricampeão mundial Ayrton Senna e ganhando notoriedade com um design de ponta.

A edição dos 160 anos da TAG Heuer inspirada numa das referências inaugurais do Carrera | Foto: TAG Heuer

Subitamente, e no meio de tantas criações vanguardistas com calibres de quartzo, a Heuer surpreendeu com um regresso ao passado: a primeira reedição do Carrera foi desvelada em 1996 e Jack Heuer esteve na apresentação, ressurgindo pela primeira vez após um longo período de alheamento que se seguiu ao doloroso processo de venda da marca nos inícios da década de 80. A partir daí, e coincidindo com o seu regresso como Presidente Honorário, o Carrera tornou-se novamente no best-seller da marca no início do presente milénio e assim tem permanecido até aos dias de hoje. «Começámos, em 1996, a tendência de reeditar relógios antigos quando o Carrera foi relançado pela primeira vez, e depois lançámos o Monaco, em 1998», disse-nos Jack Heuer numa grande entrevista que deu à Espiral do Tempo em 2010. «A partir daí, muitas outras marcas copiaram a ideia de recuperar modelos antigos; outras não tiveram essa possibilidade porque não têm a história do passado».

TAG Heuer x Porsche Carrera RS 2.7 com uma miniatura do próprio carro
Duplamente Carrera: a edição comemorativa dos 50 anos do Porsche Carrera 2.7 RS | Foto: Miguel Seabra/Espiral do Tempo

Tendo sido fundada em 1860, a história da TAG Heuer é riquíssima — sendo que o período das décadas de 60 e 70, que coincidiu com a passagem de Jack Heuer pela direção da marca fundada pelo seu tetravô é considerado como a fase historicamente mais relevante pelos Heueristas. E esse período riquíssimo para a história dos cronógrafos arrancou precisamente com o advento do Carrera. Depois de uma aventura hollywoodesca com o ator Ryan Gosling, o livro TAG Heuer: The Race Never Stops faz justiça a uma lenda que transcende a própria relojoaria. E que já inclui todas as mais populares variantes dos últimos tempos, como o Carrera em ouro, o Skipper e até o ‘híbrido’ Montreal. Sem esquecer os Carrera Connected ou a bela versão encarnada que foi escolhida para a capa da Espiral do Tempo.

Um livro obrigatório para aficionados da relojoaria | Foto: TAG Heuer

Ou seja, vale mesmo a pena adquirir a publicação nas Boutiques TAG Heuer e em determinadas livrarias físicas ou virtuais. E, já agora, complementar a biblioteca com outras obras relacionadas — como o livro Heuer Superstars de que já demos anteriormente conta.

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